quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gênio é industriosidade!*

Mestre Cacá,

você me ensinou a Nietzsche ler: Pela manhã, você dizia e infelizmente não mais me diz, leia-o. Acompanhado de um bom café, é claro. Pai patrão, Delicatessen, Bagdad café... Quantos e quantos filmes me indicastes. E teus ensinamentos, ao longo da nossa amizade, ainda guardo: Não sejas trouxa, Luccas!

Ai que saudade ingrata!






* Título que faz menção ao texto Relógio normal - Walter Benjamin.
Dia 24.12.10 falece um mestre, Ricardo Corrêa, que com toda a certeza fará falta!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O amigo Tédio

O tédio, sim ele novamente. Aquele que já me rendeu alguns textos. Sem nada pra fazer, uma cerveja pra beber, a morte a me esquecer. Bajulado pelo o tempo e o vento, oculto no cotidiano, no amanhã que é a repetição do dia anterior. Assim, ele - tédio - modela alguns de meus dias. Mas baseado em quê estou a escrever essas palavras? Ah! Sim! No tédio outra vez. Tem se tornado um bom amigo, sabe? Nessas horas em que não se tem o que fazer. Assim vai indo a humanidade com muito tédio de si mesma e um pouco de vontade de alguma coisa. Mas que coisa? Alguma coisa pra fazer. Mas pra que? Ah..deixa-me me ver! Já sei ora essa! Pra quebrar o tédio!

- Só não me vá fazer guerra outra vez Áries! Já estou entediada de tanta guerra!
- Então vou inventar o natal....

Esses meninos...sempre procurando arte pra fazer.

Andanças

Na última andança mundo a fora
Fui pra muito mais além da outrora praia de fora
Dirigi-me ao norte
Indo até seu pólo levando todo azar e sorte

Visitei novamente Asgar
Odim como sempre estava a me esperar
Das maçãs de Freya tive o prazer de desfrutar
A jovialidade que dos gregos tanto se ouve falar

E que deleite fora pôr goles de hidromel a boca!
Senti-me como Ana Terra com aquele prazer de tremer as pernas
Os bicos dos seios a tocar meu manto sagrado fez pulsar a flor mais abaixo

Em Valinor contemplei toda graça e esplendor dos Valar
Antes que o(a) leitor (a) possa a leitura desse pseudosoneto acabar
Minha roda se colocará a girar, sorte ou azar você terá quando a interrogação chegar?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ernesto


Tu deixastes teu legado,
propagastes a esperança,
não deixastes o inimigo te abater.

Criastes a paz onde não havia,
mostrastes a vida com alegria,
ensinastes os camaradas a viver.
Univo-nos!






La Higueira, Bolívia - 09.12.10

domingo, 19 de dezembro de 2010

Eles sabem de tudo.

Perguntei-me esses dias, o que se passa na cabeça de um bebê? Retruquei-me: "Não temos nenhuma memória guardada desse período da vida". Logo concluí que está etapa da vida, é o exato momento onde se responde dúvidas referentes a existência humana e todo desenvolvimento da vida, desde a origem. Sabiamente, Deus deu um jeitinho de apagar essa memória inicial, que segundo a minha teoria, seriam as memórias primordiais para responder de onde viemos e para onde vamos. Uma dúvida me incomoda, qual seria o porquê de Deus apagar essa memória? O que os bebês teriam de tão especial a mais do que nós? Nós, homens de bom coração, puros, feitos a imagem e semelhança do criador. O mistério da origem, morre com a origem, depois de meses, não sabemos mais de nada.  

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Foi, é, ou será?

Por muito tempo vivi de rotinas e certezas. Você, porém, quebrou-as. Surpreendeu-me colocando em jogo todos os sentimentos por mim escondidos durante felizes (entretanto incompletos) meses. Talvez agora, passado esse exato tempo, tenha nascido o fruto do que construímos quase sem querer.
Dói que sejamos tão incompatíveis externamente quanto sincronizados mental e interiormente. Poderíamos viver na suposta felicidade e sintonia eterna se tantos fatores externos dos quais dependemos não nos impedissem disso. Bandeira, em um dos seus poemas tísicos mais famosos, lamentou: “A vida que poderia ser sido e não foi”; Tezza, em um verso realista apresentado no seu romance-biográfico, completa e complementa: “Nada do que não foi poderia ter sido”. Esse é o dilema que, a partir do nosso desabafo mútuo, passei a querer desvendar. Você consegue ser o que minha razão nunca quis e o que meu coração pede. Deveria eu aceitar que nada pode ser feito ou prantear pelas discrepâncias?




Iulla Portillo:

http://portilloiulla.blogspot.com/

sábado, 11 de dezembro de 2010

Lave as (suas) mãos!

Suas mãos denunciam: és trabalhador, digo, sofredor. Vives para sofrer, sofres para viver. Suas unhas proclamam a sujeira que paira no todo. És sujo, ele é sujo. E eu, é claro, conjugo-me: eu sou (um pouco menos) sujo.

Memórias de um preso

Quem sou? De onde falo? Isto não importa, seguindo a moral imposta pela sociedade, sou um desqualificado, um ser à margem da sociedade, um bandido, um preso. Resumindo, uma pessoa sem espaço, sem tempo para o tempo.
Esta seria a visão que a sociedade tem de um preso, mas calma! Eu sou um preso, e não me considero nada disso que coloquei acima. Parece tudo muito confuso, então explicarei a quem estiver lendo, o porquê de minha prisão.
Bem, sinto-me perdido no tempo, a única informação que tenho, é que estou em uma quinta-feira, e pela posição de sol, é um final de tarde. Escrevo ao som do mar em uma prisão de militares. Estou no terceiro dia de reclusão, acordo todos os dias ao som de bumbos, trompetes, ou seja, minha cela fica ao lado da concentração da banda militar. A rotina é cruel, olhar fixamente as paredes de uma sala pequena, é de se levar a loucura. A sorte é que tenho um livro a mão, algumas folhas e uma caneta. A comunicação que tenho, além do "Polícia" que me traz comida, é somente com os meus pensamentos. Talvez faça mais sentido o motivo de alguns detentos tirarem a vida, com esta solidão implacável que assola horas e mais horas. Não que eu tenha pensando em me matar, entretanto, a situação é desesperadora. Neste meio tempo, descobri que não era somente eu que estava preso, quando vi o ambiente em minha volta, os alunos e a própria guarnição me atendendo, via em seus rostos uma prisão psicológica, fruto do militarismo e sua lavagem cerebral.
No meu primeiro dia que eu tive direito ao banho de sol, deparei-me com a realidade do que é liberdade. O militar perguntou-me: "Preparado pro banho de sol?" Ele estava ali por obrigação, sentia em seus olhos a impaciência de empregado. Então simplesmente respondi, "Sim, estamos preparados". Aquilo de derta forma era confortante, a minha prisão física não me afetava tanto, se comparado a prisão mental do meu colega de armas. Assim meu dia passava, tomando banhos demorados, pois o tempo embaixo da água parecia passar mais rápido. Esperava o almoço anciosamente, pois, após a refeição, o sono batia, e assim dormia para o tempo acelerar.
Esqueci de explicar o porquê de estar aqui. Simplesmente não cumpri ordens de um suposto superior hierárquico, o que me condicionou a pena de alguns dias de cadeia. Justo ou não, nem um ser humano de bem, eu desejo que passe por isso. A minha sorte foi uma caneta, um livro e umas folhas para o meu passatempo, caso contrário, sabe-se lá onde eu estaria.
TOA
Quinta-Feira, Junho de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Eu, DITADURA.

Eu te ensino a não pensar
Eu te ensino a copiar
Eu te ensino a não viver.

Eu te ensino a não ensinar
Eu te ensino a aceitar
Eu te ensino a não escrever.

Eu te ensino a Freire, o Paulo, amar
Eu te ensino a não filosofar
Eu te ensino a não ser você!

Assim é que eu te ensino,
Assim me apresento,
Eu me chamo Educação,
Prazer em conhecê-lo.

domingo, 28 de novembro de 2010

NINGUÉM É INOCENTE, MAS SERÃO TODOS CULPADOS?

As ondas de violência que estão a assolar a cidade do Rio de Janeiro vêem sendo vistas numa lógica dualista, numa antiga visão entre o bem e o mal, mocinho e bandido, obra do Zoroastro. É muito mais do que óbvio – a quem se dispor refletir sobre – que não existe nem só bandidos, nem só vilões, quanto menos inocentes a viver no meio disso tudo. De uma forma ou de outra todos e todas acabam contribuindo para este tipo de situação. Muitos traficantes são de famílias de “bem”, as quais trabalham arduamente pra conseguir seu sustento. Essas famílias – muitas vezes – são coniventes com o tráfico de drogas uma vez que seus filhos as comercializam. Obviamente também existem famílias que relação alguma possuem com este tipo de atividade econômica, mas que se omitem – em grande parte – por causa do medo. Há também os policiais a se corromperem, a traficar e/ou gerir este tipo de negócio. A corrupção, como não poderia deixar de ser, está claramente também no meio político, em que esses que deveriam ser os representantes do povo representam em larga escala as classes mais abastadas da sociedade e possuem além de ligação com o tráfico de drogas, também com o de armas (caso do político o qual o nome lembra um Pavão ou também do poderoso chefão João Havelange, embora este não seja político). Por fim, temos no topo da colina, os peixes grandes a fomentar este tipo de atividade ilegal, além de inúmeras outras variantes que não caberão aqui. São pessoas das altas classes da sociedade e entupir os narizes com cocaína, matéria prima do Craque o qual existe uma campanha demasiadamente hipócrita para combatê-lo. De certo que ninguém mora nos morros porque quer. Mas que contribuem de uma forma ou de outra com o tráfico...E os consumidores! Entoa em voz alta o conservadorismo extremo que cultiva o autoritarismo em seu âmago! “Só existe o tráfico porque existe consumidor”. O consumo de drogas existe desde que o mundo é mundo e todo tipo de segmento social já fez algum tipo de uso dessas substâncias. Antigamente elas eram utilizadas para se ter contato com o divino. Toda essa hipocrisia tem raízes no moralismo religioso, na economia e política (para destacar apenas 3 elementos disso tudo) e em se falar de religião é muito engraçado este combate, peguemos o caso do catolicismo, mais precisamente do papa Leão XIII que tomava vinho de coca, que mais tarde viraria a bebida coca-cola a qual em seu início utilizava cocaína em sua fabricação. O caso do cânhamo é muito interessante. Ele era utilizado – suas fibras – para a confecção de velas dos navios a época das grandes navegações (dentre outros usos como confecção de cordas) e mais atualmente a marca Adidas utilizava suas fibras para a confecção de um calçado. Detalhe extremamente relevante é de que o cânhamo poderia ser utilizado em quase tudo, como é o caso do petróleo, sendo muito mais ecologicamente correto que o último. Mas obviamente a máfia do petróleo não queria perder esse mercado. Aí junta-se a isso o moralismo puritano norte-americano, o preconceito em relação a imigrantes mexicanos que faziam uso da “droga” e o resultado é criminalização da maconha em grande parte do mundo, tudo isso, claro, a grosso modo. O mais engraçado de tudo é que o álcool e o cigarro - que matam milhares de pessoas todos os anos mundo a fora é permitido, paga imposto, e causa rombos nos cofres públicos na área da saúde – não são considerados drogas, mesmo sendo corriqueiramente denominados de “drogas lícitas” enquanto que no caso da maconha nunca foi constatada nenhuma morte pelo seu uso e está sendo largamente estudada pela ciência em áreas como a medicina no tratamento de doenças como esclerose múltipla e fibromealgia. “A informalidade gera violência, desordem e dividendos” como escreveu recentemente Fernanda Torres. A legalização das drogas – com políticas públicas sobre seu uso, bem como, seu controle – seria um golpe tremendo para os corruptos e o tráfico, mas são exatamente esses corruptos que estão no poder...Claro que a legalização não é nenhuma medida miraculosa, pois mesmo havendo esses controles, por trás deles estarão humanos a fazê-los, mas muito provavelmente melhoraria em muito essa situação. A questão do tráfico não é só de segurança pública, mas também de saúde pública e educação, é uma questão social. E este tipo de situação só é discutida quando passa a atingir as classes médias e altas da sociedade as quais temem que essa violência bata a porta de suas casas! A violência ocorre diariamente nos morros e ninguém fala nada. Porque só agora decidiram combater ativamente o tráfico de drogas? Como armas de uso exclusivo do exército vão cair nas mãos de traficantes? A polícia sempre soube quais são os pontos de venda de drogas. Mas deixe estar a esses policiais aspirantes a titãs, os deuses estão zangados e o mais deles é Dionísio, a tragédia se anuncia no horizonte. Minha roda se pôs a girar, tlec, tlec, tlec, que o apolínio burguês trema! O afortunado da vez é Baco o deus estrangeiro. Das florestas vem o sopro aterrorizante “Ninguém é inocento, são todos culpados”. Os "inocentes" temem "os deuses estão zangados".


"Não há mais culpados nem inocentes agora todos irão pagar, mas na guerra sublimada aleijados e analfabetos ainda tentam modificar"

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A falta

à m.



As palavras me faltam.
Que angústia!
Logo agora que tanto preciso delas
Elas me escapam.
Somem, desaparecem.
Por tudo o que representou,
Por tudo o que ainda representa.
Faltam-me as palavras.
Faltam-me.
A beleza inocente,
A doçura que não se deixa amargar.
Idas sem rumo,
Voltas sem direção.
Faltam-me as palavras.
Faltam-me.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma história pra lembrar e contar: a vida para amar

Papai, ainda me lembro, sempre dizia “cuidado com a hipocrisia”. Ouvi algumas vezes esta frase. Ele sempre procurou nos passar valores éticos e um pouco de moral, uma moral humana. No começo não entendia essa tal de moral, mas a ética era como um guia a me orientar em minhas escolhas. Aprendemos com ele a valorizar a vida, afinal uma pequena semente poderia se tornar uma enorme árvore e “a lagarta que rasteja até o dia em que cria asas”, ao batê-las aqui pode provocar um furacão em um lugar do outro lado do mundo! Toda forma de vida devia ser respeitada. A semente de hoje era a comida de amanhã. “A mãe-terra nos dá tudo o que precisamos”, dizia ele, por isso tínhamos que cuidar bem dela! No lugar onde crescemos havia muito verde, de todos os tons; cores das mais lindas quando chegava a prima mais querida, a primavera; muitos bichos – grandes e pequenos – e por vezes saíamos nas noites primaveris a procura das fadas! Tudo que precisávamos saber papai e mamãe nos ensinavam. Boa parte de nossxs amigxs iam ainda para escola. Mas nós aprendíamos com nossos pais as importantíssimas lições da vida as quais, diziam elxs, não encontraríamos nas escolas. Além disso as escolas ficavam longe, na selva de pedras – uma das mais terríveis, em que pessoas matavam pessoas, com ou sem motivo, um verdadeiro absurdo, e quanto medo nos dava ao ouvir essas estórias nas rodas de contos a beira do fogo em noites estreladas – em que a cor predominante era o angustiante cinza. Claro que nem tudo era maravilhoso, por vezes ficávamos de castigo por aprontar travessuras, bem como, em brigas entre irmãos, e papai nos fazia ir com ele em suas andanças pelas hortas, casas em construção, pescar, e nos ensinava como as coisas funcionavam, que uma casa não se começa pelo telhado “ela tem que ter uma base forte antes” e que criar animais, cultivar hortas, não poluir o rio, acabavam por criar bases para sobrevivência humana, contribuindo para saciar a fome e a sede.

Certo dia papai estava atônito e triste. Chegou pra mim e disse “filha você está crescendo”. Após essas palavras seu semblante se fechou; suas pálpebras reprimiam os olhos para baixo e uma luz correu seu rosto, era uma lágrima a qual ao cair no chão causou-lhe uma pequena deformação e se transformou em milhares de outras gotículas a molharem a grama. “Vou lhe contar uma história e preste muita atenção”.

- Há algum tempo atrás, cerca de uns 600 anos mais ou menos, o mundo começou a mudar para o que é hoje. Houve uma crise. Muitas pessoas morreram por motivos de doença, guerra e fome. Pouco a pouco os burgos (cidades) aumentavam cada vez mais e tornavam-se paulatinamente mais importantes. A nobreza entrava em decadência. A monarquia se fortalecia. Os mercenários ganhavam importância. Isso se deu num continente que leva o nome da deusa Europa.

Nunca tinha ouvido desta história até então! Deusa Europa?! Mercenários?! A 600 anos atrás?! Seguiu um breve silêncio naquele ponto. Ele procurava retomar o fôlego. E continuou.

- Deram-se inicio as grandes navegações. Descobriram então que o mundo era maior do que pensavam quando acharam essas terras. Mas elas já possuíam moradores. Esta história é sobre a ganância humana. Pois, mesmo os que aqui já habitavam, outrora também expulsaram e mataram os que antes viviam cá. Isso tudo - a largo passo – foi motivado pela ganância de pessoas ricas que queriam cada vez mais as riquezas só pra si, evidenciando desta forma, outra cruel faceta humana, o egoísmo. As instituições modernas foram forjadas. Muita coisa importante foi pouco a pouco esquecida. Os burgos – as cidades, selvas de pedras – cresciam cada vez mais. O cinza foi tomando conta do verde, a sujeira dos rios e muitos dos animais desapareceram por completo, a não ser pela memória. Inventaram as fábricas que jogavam dezenas de metros cúbicos de gases tóxicos no ar. Logo vieram os carros e já não tínhamos mais lugar por onde andar. Criaram os aparatos repressivos a obedecê-los e a nos bater, calar, torturar e matar. E diante da fumaça e desgraça que a gente teve que tossir resolvemos resistir e lutar. Mas as estruturas estavam contaminadas e assim, contaminavam as pessoas. Tivemos que fugir. E aqui chegamos. Sempre hesitei este momento, mas é chegada a hora em que você terá lidar com essas coisas sozinhas. Não podemos mais nos esconder do mundo. As cidades estão chegando. E lá se dará uma nova etapa de sua vida.

Não queria acreditar no que ouvia! Não podia ser verdade! Não queria ir pra cidade. Corri desesperada mata adentro. Corri, corri e corri sem parar. Suava frio quando cheguei à beira do rio. Estava cansada, assustada e com sede. Comecei a controlar a respiração novamente. Pouco a pouco aflição foi cedendo. Agachei-me e posicionando uma mão sobre a outra fiz um “copinho” para apanhar um punhado de água que corria pelo rio. Alguma coisa havia mudado. Podia sentir isso no gosto da água, no soprar daqueles ares. Não era mais o mesmo rio e eu não era mais a mesma mulher. Dias depois daquela conversa papai e mamãe foram assassinados. Antes disso nos mandaram para cidade na casa de parentes. Aquela fora a notícia mais triste que já recebera em toda a minha vida. Era tudo muito estranho. Mas uma frase martelava em minha cabeça “cuidado com a hipocrisia”.

Aos poucos comecei a sair do quarto. Voltei a comer. A comida nunca mais teve o mesmo sabor. O que era aquilo que comiam na cidade? Pra mim não era comida. O medo da selva de pedras ainda se fazia presente. Estava olhando pela janela da sala a rua. Era uma grande janela. Então pude ver o tempo mudando. Ao longe vinha uma imensa, gigantesca, nuvem escura. Dela saíam muitos raios, trovões! Mas poucos atingiam a superfície. Corri para o quarto e me escondi em baixo das cobertas. Foi quando lembrei certa vez de uma pequena planta. Era um dia tenebroso como este com milhares de raios e trovões e pensava “coitada da pobre plantinha sozinha lá fora”. Na manhã seguinte corri para ver como ela estava. Seu estado era drástico. As folhas caídas pareciam demonstrar sua tristeza. Papai então chegou e me disse “não fique triste minha pequena, as raízes estão firmes, a base está forte, ela irá melhorar”. Essas palavras acalmaram meu coração. Dia a dia ia lá para ver a pobrezinha. Na primeira semana as coisas pareciam não mudar. Quando veio a segunda semana pude ver o que os olhos não permitiram. As raízes estavam fortes mesmo como papai disse e as folhas voltavam a flutuar entre o caule, o céu e o chão, desafiando novamente a gravidade que as colocara para baixo. Não podia mais ficar ali, escondendo-me para sempre embaixo do lençol. Dei um pulo de súbito! Coloquei um calçado e saí pela porta! A tempestade já havia passado. Tinham crianças na rua a jogar bola e se divertir das mais diversas formas. Estranhei aquela cena. Por muito havia guardado apenas aquela imagem apocalíptica da cidade. Foi então que percebi. Quando papai me falou aquilo não era pra me amedrontar, mas para me alertar das atrocidades que ocorrem nas cidades, principalmente nas grandes. Os pais daquelas crianças das ruas não eram iguais, alguns se pareciam com os meus outros eram os gananciosos e egoístas que papai nos prevenia. E estes falavam muito bonito para inglês ver (ou seria melhor: para norte-americano ver?); falando de sustentabilidade, ética, justiça, quando o que lhes importava era o dinheiro, aquele “pedaço de papel sujo, que nem pra limpar a bunda serve” dizia mamãe em suas discussões com sua irmã, nossa tia. E nessa correnteza eu notei a essência da frase martelo, pois a nossa maior luta chegara, a luta pela vida! Estávamos nas ruas protestando! As empresas sintéticas pretendiam dar o golpe final! Nesses tempos a artificialidade tomou conta da vida. Denominavam os sábios isso como sendo a “anti-vida”. O individualismo nos isolou por duros anos, até este momento. O Chefe de Estado então decidiu se pronunciar. Seu partido era tido como de esquerda.

- Cidadãos e cidadãs!

Logo pensei, pra quem este palhaço está falando?! Nunca ensinaram cidadania em suas políticas públicas...ah, sim, cidadãos são os abastados, assim como, na antiga Grécia, de forma bem diferente, obviamente.

- Estamos aqui para manter o Estado-democrático de direito!

Milhares de forças repressoras asseguram o discurso do chefe e muito bem equipadas nos ameaçam de diversas formas, inclusive de morte.

- Deixem essas questões para os órgãos responsáveis! Entoava ele.

Curiosamente neste exato momento a ficha parece ter caído a todxs! Estávamos frente a frente com a hipocrisia. Os órgãos competentes eram extremamente incompetentes para com os vidamantes, demonstrando na maioria dos casos completa indiferença para com nós! Pude então entender a tal da moral! Mas esta que nos despejavam a torto e direito não era humana. As campanhas eleitorais eram uma das maiores peças a qual esta humanidade presenciava! Criminalizavam as drogas e fomentavam o tráfico, o qual sem pagamento de tributos ao Estado entrava já sob a forma de dinheiro nas campanhas, aumentando o endosso dos famosos “caixa 2”, acabando também por fomentar a violência. Não permitiam ao pequeno cultivar sua comida em terras protegidas pelas leis ambientais, mas garantiam o aval de construções com enormes impactos ambientais naquelas regiões sem nenhuma forma de punição para esses figurões, como enormes represas – as quais acabavam por alagar imensas áreas – estaleiros em águas rasas, dentre outras. O dinheiro produzido com nosso suor, nossas vidas, ausência – muitas vezes – de carinho e atenção para com os nossos, era – através dos impostos – dado aos banqueiros e outros exploradores da vida alheia. E a nós? O que resgatava agora? Nem mais migalhas! Nem mais migalhas! E parece que de uma forma mágica ou racional, não sei, essas palavras ecoavam nas cabeças de cada um(a) ali presente! E repentinamente começou! Em uníssono:

- Não mais migalhas, vida a quem trabalha! Não mais migalhas, vida a quem trabalha!
- Não mais migalhas, vida a quem trabalha!

E o que começou aos poucos de forma tímida, foi tomando conta de tudo e todxs! Tão logo assim o foi, que xs humanxs por trás das fardas puderam perceber novamente a vida! E o que tinham feito a ela! Aquilo não podia continuar! E começaram a entoar ainda mais alto:

- Não mais migalhas, vida a quem trabalha! Não mais migalhas, vida a quem trabalha! E começamos todas e todos a marchar em direção aos(as) tiranos(as)! O chão tremia! Aos “déspotas” se notava agora um extremo medo, terror e pavor em seus olhos! Foram cercadxs e obrigadxs a se render. A humanidade não era mais a mesma. Sabíamos o que fazer. Não precisávamos de mais ninguém a dizer como as coisas tem que ser feitas! Não mais Estado e aparatos repressivos, não mais patrão, uma nova Era parece emergir.

E tão logo a vitória chegou, colocamo-nos a nossos afazeres. Os inimigos de ontem são no máximo hoje como animais peçonhentos, sem muito que temê-los, mas tendo o cuidado de não pizá-los. Agora não precisava mais trabalhar todo dia, muitos menos fazê-lo guiado pelo tempo do relógio. Agora acredito que meus filhos poderão viver num lugar mais justo, um lugar que nossos pais lutaram e sonharam, um lugar pra chamar de lar, um planeta pra amar, um lugar para sempre lembrar. De terra e mar; beber da água do rio pra sede saciar, ir para onde quiser e sem nenhum papel a nos condicionar. Novamente a voz prevalecerá. Temos uma vida pra amar.

Impressões sobre o tempo.

Tudo está se apagando, ruindo. O tempo está a engolir todos que ficam ao seu redor... De que tempo eu me refiro? O tempo dos humanos?
Tenho algumas impressões sobre o tempo. Um dia, quem sabe, elas se tornem certezas e minhas impressões param de me perseguir. Ainda estou sendo seguido, perseguido por ele - o ponteiro não cessa de funcionar! Maldita construção: o tempo.

sábado, 6 de novembro de 2010

Open your eyes

Ela abriu os olhos - realizada - e viu um teto estranho. Teto que julgou devesse ser reformado. Olhou para o lado, e ele ainda dormia, com um leve sorriso de satisfação no rosto e a mão sobre o ventre dela. Com todo o cuidado, ela levantou-se da cama. Pisou num tapete macio, azul - que parecia veludo - pegou uma camisa dele e entrou no banho. Ao sair, de cabelos molhados - e molhando a camisa, sentiu um forte e agradável cheiro de café recém feito; o cheiro infestava a casa. Olhou para a cama e dessa vez só encontrara o gato, Bola de Meia. O animal não pensou duas vezes quando pulou no colo dela, pedindo cafuné e chamego. Ela aceitou e reconheceu os motivos de ele nunca ter se desfeito daquele bichano. Sentou-se na cama, e no chamego viu ele subir com um café na mão. O cheiro de café se misturava ao cheiro do shampoo, do cabelo dela.

Ela tocou a mão dele, em busca da caneca: mão quente, passando o calor. Ele tocou a mão dela, deixando a caneca: mão fria, buscando calor.

Nesse momento, os olhos se encontraram, a luz que refletia naquele verde se tornou a mesma luz que refletia nos castanhos dela. A boca dele procurando o cabelo molhado dela, enquanto a boca dela procurava a caneca quente de café dele. O cheiro de café se confundindo com o cheiro de shampoo; misturados.

A mão dela agora é quente, a mão dele agora é fria. O tapete no chão ainda é macio, mas mais macio é o Bola de Meia se enroscando nas pernas dela. A luz que estava lá fora se vai. As pequenas gotículas que choram do céu escurecido são transparentes e refletem a magia do momento: o sorriso transparecendo nos olhos brilhantes.

O café acaba, ele desce. Bola de meia a empurra para a cama, e ronrona no afago. Ela aceita, e, de cabelos molhados – sentindo o cheiro de café - entra no banho. Sai com a camisa dele, molhando-a. Pisa no tapete macio, azul, que parece veludo. Com cuidado, deita-se na cama. Olha para o lado e o vê, de olhos abertos. Ele coloca a mão no ventre dela, e fecha os olhos com um sorriso de satisfação. Ela olha para cima, pensa na reforma que deveria ser feita naquele teto desconhecido, e fecha os olhos - realizada.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um primeiro encontro


A liberdade em que as pessoas acreditam que vivem não existe. Desde os primórdios a humanidade esteve em transe sob a sombra da luz. Há uma terrível sombra que os mantém caverna adentro, a qual se chama medo. O medo - por vezes - age de maneiras sombrias correndo pelas espinhas. Paralisa. Atordoa. Alienia. Atrofia. E por fim, mata. Mata, mesmo que a sobrevida permaneça. Desconhecem a vida pensando temerosamente na morte. Sois essa a vossa sorte! Do contrário, quais sortes senão a morte? Aqui começa o tal recorte da ausência de nossa sorte! Há apenas a dita cuja da Fortuna que com azar e sorte nos importuna. Tão pequenos vós sois que essa história contar-lho-eis depois.



E foi assim, que os contadores cantores - cegos eram - contaram cantando os dizeres do primeiro encontro com a gigante Aldebaram.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sidarta!

Sidarta está prestes a partir e não sabe quando volta.
Com toda a sinceridade, resumindo sua expressão, não sabe se volta.
Por que deveria voltar?

A busca dele não é única.
Não é nova.
Não é de todos.

O que ele procura, muitos já procuraram.
Poucos - verdadeiramente - encontram.
Pouquíssimos, eu suponho.
Mas, diz ele, não custa tentar.

Percurso tortuoso, respostas sinuosas, tautologias mil.
A objetividade das respostas, isso Sidarta bem sabe, não será encontrada.
Sua procura é outra.

Vá, Sidarta, vá!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Imensidão


Ponho-me a refletir ao passo que projeto meu corpo para trilhar sobre as linhas férreas que conheci desse país; elas levam-me ao longe, mesmo que meus pés estejam de fato cravados ao chão. O emaranhado de trilhos carrega meu pensamento pelo chão extenso até a Amazônia e os seringais. Terra que carrega um tesouro, e berço da estrada de ferro; peregrino até a Amazônia para que consiga encontrar-me dentro de meu próprio ser.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desvendando o espelho.

Folheava meu dicionário pessoal rapidamente e, por mais que eu quisesse, não encontrava a palavra. "Locupletar", "Locutor". Ali no meio, nada. Perturbei-me por um curto instante; Mas ao ouvir o silêncio, a calma. Tomei um gole d'água e finalmente olhei ao meu redor. Meu quarto. A segurança de que ninguém entraria. Espalhados pelo chão, centenas de rascunhos. Desenhos, amores e desamores, desabafos ridículos. Objetos em lugares para mim fixos, minhas manias mentais. Como num mergulho no meu oceano tão pessoal e seco, abri novamente o dicionário e, mediando a riqueza e o narrador, escrevi a lápis mesmo "Lócus". Fechei-o e vivi um sorriso em que abrir a boca nem foi preciso.






(Feito por uma talentosa escritora, Iulla Portillo, que tem escrito com frequência no portilloiulla.blogspot.com)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Vê, agora?

- E, então?

- E, então, o que?

- Ali, logo adiante, me diga senhor, o que está vendo?

- Nada.

- Nada?

- É, nada.

- Como nada?

- Nada porra! Não tem nada ali! Não tem nada aqui! Só areia para todos os lados... estamos perdidos, oh céus!

- Pois eu vejo muitas coisas ali adiante...

- Você está louco homem, não há nada ali! Só o maldito deserto! O maldito e seco deserto! E foi você quem nos trouxe aqui, a culpa é sua!

- Admito meu caro, que a culpa é minha, mas veja bem, você não vê, ali adiante, os tigres, o enorme Dragão, a moça bela com longos cabelos e olhos de diamantes...?

- Não. Tudo que vejo é um enorme nada. Um grande mar bege que no horizonte se uni a outro enorme oceano azulado. Não há nada além disso.

- Pobre coitado, o Sol já deve estar afetando suas idéias. Tudo bem, mas vai me dizer que você não vê o Palácio de Cristal, com o seu monarca na varanda? Ele está nos olhando nesse exato momento.

- Não, meu amigo, ele não está! Você está louco!

- Isso é porque você só olha com os olhos.

- E com o que mais deveria olhar?!

- Ora, não é obvio. Com os ouvidos, com os pelos do corpo arrepiados, com o coração, com as sensações... coisas assim.

- Meu chapa, você está mais louco do que eu imaginava! Mas não se preocupe, logo o Sol irá nos desidratar por completo.

- Louco é você!

- HAHAHA, essa é boa! Eu, louco?! Diante das tamanhas besteiras que você me fala! Baseado em que você explicaria minha loucura?!

- Veja bem, meu jovem, essa questão é simples, tente não se espantar. Esse sonho é meu, logo o louco é você, que nem sequer existe!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma das janelas

Um dia desses abri uma das janelas da casa e vi lá, ali, logo adiante, onde havia o dito sol radiente, o cinza nos mais variados tons. O vento e o frio ocupam o vazio de montanhas de areia cinza-claro; e ao fundo o grito do Desesperado!

- Nãooooooooooooooo!

Logo sobe um calafrio pela espinha. A noite aqui agora parece eterna. A luz já não mais brilha além do olho em chamas de ganância. Chamamos a esses Iluminados Olhos. O desatento pode vir a concebê-los como amáveis, exaltado diante da beleza do brilho daqueles olhos, Iluminados Olhos, tão logo cegos acabarão, mas não antes de ver o terror do asco de si mesmo quando de súbito se mira sendo devorado, mordida após mordida, dentada após dentada, dilacerando a carne! Parte já está só no osso, onde a dor é uma das mais terríveis e angustiantes, como sentir os ossos sendo serrados, roídos por ratazanas desdentadas, - e o pior, chega à beira de um prazer estranho - e assim, também é o asco de ver-se literalmente despedaçado! Mas, as veias ainda pulsam junto ao sangue a escorrer, espirrar e enfim jorrar! A dor agora já não é mais dor! É uma transmutação somada com o prazer, um prazer estranho a essa sociedade e seus preconceitos, a ignorar o prazer da dor e a dor do prazer de morrer, o prazer de sentir a larva se banquetear da sua carne exposta a quem quiser ver o que - do rosto as entranhas - o apolíneo burguês fez parecer seu ideal, esquecendo, pois, da podridão de que é feito o ser - humano. Eis aqui o limite explícito da aparência.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Azmyl e o vazio

Azmyl costumavam dizer os antigos, ou ao menos assim se acredita, quando sentiam alegria em seus corações. Disso sabiam muito bem - étile - aqueles que estavam acima de todos e abaixo do nada - quando compartilharam Azmyl! E foi neste momento em que a cisão se forja lentamente! Aquele caixote veio a dar sentido e sustentação final para o mundo das imagens, da razão, da visão. Através delas maquinaram tamanha chacina! Estavam prestes a matar milhares e milhares de elfrin - oráculos, popularmente conhecidos na atualidade como sonhadores - dilacerando (rasgando a duras mordidas de bocas sedentas de sangue findando a existência máxima de sentido daqueles caninos)os sonhos, a imaginação das pessoas, que passariam, gradativamente, dali por diante, a romper e/ou conciliar seu imagético sobre as coisas, pois, ora, há uma imagem agora!


E que alegria causa essa tal de imagem! E se as pessoas ficam alegres tudo, parece, então, estar bem! Azmyl é capaz de organizar e reunir várias imagens em blocos compactos chamados programas. Existem programas de vários tipos e gêneros: comédia, drama, suspense, novela, filmes (simulacros). Azmyl, por fim, ocupou o enorme vazio que existia. Existia em mim, você, nós, vós, eles, na sociedade, na humanidade. Não me sinto só. Já não me importa mais se programo ou sou programado. A novela vai chegando ao fim. Oh triste fim de mim! O que haverá depois? Outra novela, pois, e eu não serei eu, talvez uma outra personagem qualquer.

domingo, 10 de outubro de 2010

Ex-cravo.

Estive preso durante algum tempo. Um bom tempo. Alguns fatores faziam-me estar naquele estado. Não pude explicar, mas estava preso. Que asco! Uma má sensação tive. Em verdade, não sabia se era má ou não. Sufocado, sob a égide das leis "naturais": xilema, floema, seiva bruta. Altos e baixos. Fatores alheios, universo em pleno desencanto.

Eu tentava, repudiava, e continuava preso. Alguém que não conhecia tentou me libertar. Eu, assim pensei, com a ajuda desse ser, me libertei.

Já fui de tudo um pouco. Agora restavam-me lembranças. O resgate, assim me ensinaram, seria impossível. Não resgatei minhas lembranças...

Imerso no meu saudosismo, juntei o que restou: um pouco de cada. Tive saudades da minha pátria amada que não era o Brasil. Atravessei um rio chamado Atlântico. Mudei meus costumes. Moldei meus costumes.

Conheci sujeitos antes inimagináveis. Trajavam vestes estranhas, talvez não tivessem - vai saber! - entranhas. Pomposidades alheias, disseram-me que eu me libertei de minha terra.

Agora sou um ex. Ex-africano, ex-algo. Eu, que um dia fui planta, sou ex. Em minha terra, era um belo cravo - nunca briguei com a rosa! Agora sou um ex, ex-cravo da (na)Ilha da Vera Cruz.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


À Laura, minha afilhada.


Quando tudo estava enegrecido,
Você surgiu e eu sabia.

De todo meu amor - mesmo que ainda inexplicável
Eu explico:
És parte de mim,
És parte do todo.

Seja bem-vinda.
Assim eu te apresento o mundo, pequena.
Pequena Laura Sofia!




Imagem: Madre y niño
Autor: O. Guayasamin

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Gripe A...nta

Talvez Balzac estivesse certo e Shakespeare não. Refiro-me aos jornais. Talvez eles sejam, como disse Balzac, os lupanares do pensamento. Uma coisa pode ser considerada certa: eles fornecem informações. Mas que tipo de informações?

Não venham me dizer que os jornais são imparciais. Não venham me falar que sem eles não viveríamos. Não venham me comentar que eles mostram somente a verdade. Qual verdade? Não tratem os jornais como novelas. Alguns sábios dizem que elas – as novelas - tratam da realidade. A título de curiosidade: Qual realidade? A minha? A sua? Eu não sou da Índia, muito menos faço parte de suas crenças, credos. E esses sábios dizem que ela mostra a realidade. Sei...

Sem os jornais, talvez a vida seria mais bela, talvez a vida fosse mais doce, la dolce vita. É impressionante como uma notícia muda tudo, todos, todas. Um simples telefonema anônimo e o caos se instala. Não abra mais as cartas, elas devem ter antraz! Conspira-se contra o vizinho, sogro, sogra (essa sempre merece atenção!). Hã, eu sempre soube que ele era suspeito. Comprava muita comida congelada... Detetives para botar inveja em Sir Doyle.

- Extra, extra, uma nova forma de gripe chegou para nos assolar! Dizem, os especialistas, que seu impacto será tão forte quanto a peste negra de séculos atrás. Noticiou um jornal fictício ou verídico. Tanto faz! Aprendi em matemática que a ordem dos fatores não altera o resultado. O nome da “coisa”, segundo esse jornal, é gripe suína, mas como a moda não pegou, denominaremos – seguindo as tendências de Milão - A...nta, gripe A...nta!

Estamos em alerta! Não aperte a mão do companheiro, não espirre, não tussa, não! Usaremos máscaras mesmo que fiquemos parecidos com alguma dançarina do funk. Quarentena já. Atenção, muita atenção! Todo cuidado é pouco! Cuidado com a gripe, porque...*


* O autor deste texto, por motivos de suspeita de gripe A...nta, não acabou de escrever o texto.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Visível invisibilidade

A voz que não se cala.
O rosto que não se apresenta.
Quem és tu, outro?
Quem são os outros?
Opina, constrói, destrói.
A idade? O tempo? O tamanho?
Julga, pré-julga, não perdoa.

Não sente, não chora, não se apaixona.
Quem és tu, outro?
Quem são os outros?
Ele não é isso, ela não é aquilo.
Coitado do Fulano, Fuja do Ciclano.

Não, é a idade.
Isso mesmo, a idade!
Ahhh, a idade.
Que forte motivo há: a idade.
O(s) outro(s) tinha(m) razão:
O problema é a idade.

Calo-me.
Quem sou eu para digladiar com o Coro?
Ou melhor: Onde está o Coro?
Se ao menos...
Não adianta.

O outro é indiferente, talvez nem seja gente.
Talvez seja gentes.
Fugir?
À francesa, à moda francesa.
Mas logo, antes que o outro me veja...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma hora a menos

Uma hora a menos e meu silêncio é sagrado. É preciso cultivar a dor para um aceno vir do mar e levar ao vento tuas forças quase perdidas. Antes de anoitecer e as vagas subirem, estarás à maré sem compreender a névoa donde chegaste. Teus pés estão duros de frio, a terra ainda é fria, mas as mãos fazem fogo de tanto esfregá-las. A noite cai e as labaredas iluminam à tua volta: há anjos que se aproximam e perguntam o que sentes vivo. Não há como dizer, dizes, é preciso esfregar as mãos e sentir o fogo esquentar: por sorte, tenho o fogo. Os anjos riem e dizem haver muito perigo e amor no fogo. Tu não compreendes a língua dos anjos, mas não quer espantá-los e apenas sorri. Há pouco, vejam, meus pés estavam tão frios que eu mal os sentia, vim de outro lugar e não sei onde estou, em breve terei fome e tudo começa outra vez. Se isso faz sentido, não sei, mas o que mais esperar? Os anjos sorriem mais uma vez, olham-se como sombras e desaparecem junto à chama que aos poucos se apaga. Adiante no céu negro desponta um planeta. É preciso andar, vencer o frio, saber-se humano. Nada além de humano.




Jason de Lima e Silva - Filósofo e autor da brilhante obra "O homem que ficou vesgo".

Céu Laranja-Azulado

Quando é noite bonita e as nuvens pintam o céu de laranja-azulado, lembro-me daquela velha senhora: No sítio, em meio às árvores, ela me chamava e sentávamos na varanda; ela na cadeira de balanço e eu na rede - que àquela época ainda era bem cuidada - e ela falava da sua vida. Embora eu sempre dormisse antes que ela chegasse ao final, ela não se cansava. Toda vez que as nuvens formavam figuras laranja-azuladas no céu, lá vinha ela, com a bengala equilibrando de um lado e a rede para meu repouso do outro, me convidando para a prosa.

O início de sua história já me era decorada. Ela tinha um roteiro, e dizia que sua vida daria um bom livro; gargalhava sozinha depois disso. Um dia, pedi que ela contasse sua vida ao contrário, começasse do presente e fosse ao passado. Péssima idéia! Ela fez cara feia, recusou-se e disse: “Se algum dia eu contar a historia ao contrário, você não dormirá e eu não terei desculpas para ficar perto de você numa próxima vez! Se algum dia você não dormir e sonhar com minha história, será porque a contei baseada no hoje, e só o que sei sobre o hoje é que gostaria de ser aquela nuvem laranja, que pinta o céu azul.”

Depois disso, ela ainda balançada, a abracei. Senti uma lágrima escorrer de seus olhos e ela disse: “Eu sabia que você me entenderia, e temi, em vão, o dia em que isso acontecesse!”. No dia seguinte, ela estava sentada na cadeira de balanço, com um sorriso descansado no rosto; morta.

Aqui na redondeza, as noites não escurecem mais como antes. O sol poente traz as nuvens laranjas que decoram o céu azulado; que muitas vezes, figuram como lágrimas que se transformam em sorrisos bondosos, de um céu laranja-azulado.

[homenagem ao trio da travessa em outubro de 2008]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O escafandro e a falsa borboleta

Um mergulho no ano de 1938. Talvez meu último. Talvez.
Minha carapaça era o escafandro. Um pulo. Um salto na incerteza. Nunca soube se voltaria. Uma leve sensação de leveza... Pensei que aquele era meu mundo. Longe de tudo, de todos.

Descendo, descendo, descendo. Fui, aos poucos, descendo. Aquele peso, enquanto descia, ia sumindo... A responsabilidade, a flor da idade, aquilo a que todos prezam – todos menos eu.

Quando livre eu acreditava estar, senti-me sendo puxado. E estava mesmo. Algo me prendia ao passado, algo me prendia ao presente. Era aquele cabo! O cabo do escafandro... Tive que retornar. Gregor, ao erguer o cabo, me puxava para aquilo que eu não mais queria: viver.

domingo, 29 de agosto de 2010

Redenção

O despertar de uma nova consciência é algo doloroso. Pelo menos para ele, ser desprovido de visão mais plena. Meticuloso, desconfiava constantemente dos que estavam a sua volta, no cerne, o medo de ser superado. Caminhava vagamente pelas veredas com medo de encontrar ser errante na estrada longa que acompanhava. Por onde vagueava, predominava um breu que dificultava um peregrinar sereno. Apenas uma luz semelhante a um lampião brilhava ao fundo. Esta concedia uma mínima noção da trilha turva pelo qual o peregrino seguia. Nas escassas vezes que tinha coragem de observar a paisagem ao lado, surpreendia-se com tanta beleza. Contudo, não se sentia capaz de trilhar por tal caminho, o pensamento de estar descoberto o amedrontava. Sabia que ao lado predominava uma lei universal pelo qual os andarilhos deveriam acatar: o descortinar de suas vestes. Passou-se algum tempo e o eremita caminhava só em relevo irregular. Algo em seu pensamento, porém, se transformou. A solidão tornava-o fraco. Sentia que não mais agüentaria carregar o fardo de seus sentimentos sórdidos. Parou, e fez um movimento raro em sua peregrinação, observou a luz que iluminava ao fundo. Imaginava que ela era diferente do caminho que o amedrontava, pois estava em direção que, pelo menos em sua concepção espacial, diferia da trilha que margeava. Decidiu se aproximar. O caminho tornou-se mais árido, começou a atravessar diversas intempéries. O frio, antes predominante, desvaneceu. Passou a predominar calor quase insuportável. Sentiu sede. Andava munido apenas de arma branca afiada, conhecida em alguns lugares por peixeira, terçado, ou simplesmente facão. A luz tornou-se mais forte, avistou no horizonte mandacarus. Pensou, eis minha única chance. Sabia que esta espécie acumulava água e que poderia saciar parte de sua sede com o líquido extraído. Realizou o trabalho, sem antes ter a pela cortada pelos espinhos característicos da vegetação. Sentiu forças para prosseguir. Adentrou em um terreno desértico, a luz intensa não o deixava observar o horizonte. Caminhava com dificuldades e sentia suas forças se esvaírem. Sabia que não havia mais retorno, ou caia e tornava-se parte daquele deserto, ou prosseguia. Resistiu. A um dado momento a luz intensa diminuiu e concentrou-se em um ponto a certa distância. Teve forças para olhar. Aquela luz começou a demonstrar colorações diversas, das mais belas que até então vira. Com as derradeiras energias, prosseguiu. Passou-se algum tempo e eis que o peregrino avistou seu objetivo. Uma rosa púrpura destacava sua plenitude dentre aquele relevo desértico. Dela emergia aquele brilho que avistava ao longe. Prostrou-se diante dela e chorou. Sentiu o peso dos anos que peregrinou a ermo evaporar por seu corpo. Ainda ajoelhado e com os olhos baixos despiu-se de grande parte de suas vestes, elas não mais eram necessárias. Ao levantar os olhos uma surpresa. Encontrava-se em meio ao caminho antes indesejado. Contudo, sentiu imensa alegria de estar ali e renovadas forças para prosseguir. Sabia que carregaria agora vestes moldadas por história de reconhecimento e transformação, o descortinar seria menos oneroso e sentia coragem para realizar tal empreendimento. Ao antes eremita aproximou-se uma bela andarilha, não sentiu medo, contou sua história e construiu com ela um primeiro laço. Sabia que era apenas o primeiro ato de uma grande jornada que não mais temia seguir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Canção do exílio - adaptada à Ilha de Vera Cruz.

Minha terra tem injustiças
Onde cantam os marajás,
As aves rapinas que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais sujeira,
Nossas várzeas mais odores,
Nossos bosques estão sem vida,
Nossa vida dissabores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Nenhum prazer encontro eu cá
Minha terra tem injustiças
Onde cantam os marajás.

Minha terra tem milícias, favelas, corrupção
Que tais não encontro em nenhum lugar não;
Em cismar — sozinho, à noite —
Nenhum prazer encontro eu cá;
Minha terra tem injustiças
Onde cantam os marajás

Não Permita Deus que eu morra,
Nem que eu vá para outro plano;
Sem que desfrute os primores
Longe dos dissabores;
Sem avistar os pós-maluf's nas Ilhas Cayman,
Onde cantam os marajás que virão amanhã...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Do amanhecer

De minha infância guardo muitas boas lembranças. É só olhar pra trás que meu peito se infla de ternura, um ar nostálgico me invade o espírito e meus olhos de úmidos transbordam. Meus pais me deram muito amor, muito carinho. De afeto, tive a dose que uma criança precisa. Só não tive mais, pois meus pais trabalhavam boa parte do dia e não havia muito tempo para me paparicar. Eles são pessoas muito carinhosas e herdei um pouco desse carinho através dos vínculos que nos unem. Fui uma criança livre. Apesar de ficar sob os cuidados de minha avó paterna ao longo dos dias, que àquela altura era uma senhora de seus sessenta anos, e que, apesar da redundância não me furtarei deste comentário, era bem conservadora. Minha querida avó não gostava que eu atravessasse os limites de nosso quintal e fosse à rua ter com os meninos da vizinhança, mas mesmo assim me sentia livre, pois nosso quintal era mágico. Era grande e havia muitas árvores que davam flores de variadas cores de tal forma que durante o outono partes deste quintal ficavam cobertas por uma espécie de tapete amarelo, dada a tonalidade das flores e outras partes de um tapete vermelho. As flores eram cheirosas e macias e como eu vivia descalço, sempre sentia a maciez dessas folhas que cobriam o chão.
Fui disciplinado a dormir cedo, e por conseqüência, quando pequeno, acordava cedo sem que isso fosse um trauma, como uma naturalidade quase estranha para uma criança. A janela do meu quarto era grande e por entre sete e oito da manhã, ao sentir alguns raios de sol mais amarelados acariciarem minhas pálpebras, despertava feliz, pois sabia que era dia, e eu podia sair pelo quintal de minha casa. Aqueles raios inofensivos hoje pertencem a minha lembrança, pois hoje em dia é muito difícil acordar cedo, a não ser que eu tenha que fazer isso. E os odores matinais estão igualmente muito presentes em minhas memórias. O cheiro da relva que fora molhada pelo orvalho, ou antes deste, o cheiro de pão torrado na grelha, os pés sorrateiros se esquivando da vegetação úmida, já após o bom café da manhã... quantos pássaros haviam naquele quintal, muitos cantavam durante o amanhecer e parecia que cantavam para mim. Havia muitas árvores frutíferas. Pé de tamarindo, de cajá, de jaca, de abacate, de amora, alguns tipos de manga, jabuticaba, cana-de-açúcar, goiaba, graviola e provavelmente outros. Subir nessas árvores era muito agradável, sobretudo nos dias de calor. Elas eram como um abrigo do calor, pois conservavam um ar incrivelmente fresco abaixo de seus galhos e folhas. Estamos falando dos meus cinco, talvez seis anos. Um pouco mais tarde, já familiarizado com a vizinhança, os muros desse saudoso quintal já não se faziam tão altos assim.

Esse lugar situa-se no bairro carioca de Campo Grande. No século XIX neste lugar havia cafezais, e o Imperador tratou de esticar uma linha férrea até lá, de maneira a escoar a produção. Não por acaso meu pai encontrou, em nosso quintal, moedas do tempo do império. Ele colecionava moedas, tinha catálogos e sabia o que estava dizendo. Eram duas patacas com o diâmetro de uma goiaba, cor de bronze com alguns inscritos de difícil compreensão. Pode ser que outrora escravos tivessem trabalhado por ali. Pode ser que não. Pode ser que o brilho daquelas árvores tivesse o adubo de sangue. Pode ser. Alguém passou por ali, nisso eu creio, senão como aquelas moedas teriam ido parar em tão distante lugar?

Na medida em que crescia, pude perceber que os garotos de minha rua, que era meu incrível universo de criança, vinham de condição mais humilde. Com eles aprendi a andar em nosso universo com poucas vestimentas, uma bermuda comprida e um par de chinelos já estavam de muito bom tamanho. No Rio, pelas bandas de Campo Grande, faz sempre muito calor. Também me são inesquecíveis as memórias ligadas aos jogos de futebol. Lá futebol era coisa séria. O passe prevalecia sobre os demais fundamentos, mas o drible é pré-requisito para ser considerado no esporte. Acertar o outro não vale, é sujeira. Lá só podia jogar limpo e nem precisava de gente arbitrando. A bola rolava no meio da rua, que era de chão batido, à beira de um esgoto a céu aberto, conhecido por vala. Havia buracos, aos montes, e muitas pedras espalhadas pelo chão. Mas mesmo assim a bola rolava, todos jogavam descalços e não era comum ver gente se machucar.

Aos domingos o jogo era em outro lugar: saía de casa com meu pai, antes do galo cantar, escuro ainda, rumo ao Mendanha para o campo dos veteranos. Sim, o glorioso clube Veteranos do Mendanha. No meio da viagem pausa, carro estacionado e uma média com leite numa padaria de sempre. Em pé, de costas pro estabelecimento, manhã fria e copo quente na mão assistindo o sol nascer. Chegávamos ao campo bem cedinho e o pisar descalço no gramado era sentir a grama gelada, graças ao sereno da noite. Lá havia muito mato ainda, nos arredores do relvado, resquícios imperiais. Lá a modernidade é bem diferente dos grandes centros. Os amigos do meu pai chegando um a um, abraços fraternos, todos trabalhadores que suavam ao longo da semana e que no domingo acordavam mais cedo: domingo era dia de futebol. Nunca me destaquei com a pelota nos pés, no futebol aprendi a respeitar os companheiros muito mais que a dita cuja. E isso por si bastou, já fez valer a pena. Tinha por ai meus quinze anos. Nessa época, em períodos de férias escolares, o céu ficava repleto de pipas. E ali, quase tudo era feito de maneira artesanal. A pipa e seus acessórios e o fator decisivo pra sobreviver naquele céu em guerra: o cerol. Boa parte do carretel de linha era desenrolada de um poste a outro e assim se faziam muitas voltas. Cola de sapateiro derretida, vidro moído, bem moído separado em outro vasilhame. De preferência vidro de lâmpada fluorescente. Misturava-se bem o vidro com a cola e ai sim, tínhamos um cerol fino. Bom pra cortar as outras pipas, bom pra limpar o céu se a coisa estivesse complicada. Horas de trabalho pra pô-la no ar em condições de sobreviver.
Tenho muitas outras histórias a contar dessa fase de minha vida. E sobre Campo Grande, uma milhar de outras a contar. È engraçado. Poucos, além de quem mora no Rio, alguma vez já ouviu falar em Campo grande e quantas histórias esse lugar possui. O Didi, famoso folha seca, tinha um sítio por lá e... bem, é preciso ficar por aqui.
Hoje em dia, há mais de um ano tento contar uma história do novo lugar onde vivo e a coisa não é tão fluente assim. Possivelmente o fardo de estrangeiro emperra minha pena ao ousar contar histórias de um bairro que não é o meu. Não sou lá um cara moderno, tenho dificuldades onde ninguém tem. Tenho superstições e é aos poucos que vou entendendo que as fronteiras do mundo conhecido se estendem um pouco além das de Campo Grande.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cenas Urbanas I – O Despertador

- Alô, você vem pra cá agora?

- Porraaaa!!!! Eu posso dormir por acaso? Você me deixa dormir? Quem é você para invadir o meu espaço? Não percebe que moro aqui debaixo dessa marquise? Eu moro nessa merda, porra !!! E você, seoporra, que pensa que é gente só por que veste terno de microfibra e calça sapato italiano. Eu sou e estou nessa merda toda, mas eu sei o que você veste o que carro que você tem, eu conheço tudo o que me cerca, e vejo além das coisas. Ao contrário de você seoporra, que passa por aqui todos os dias e nunca me viu ou se viu, fez questão de esquecer. Sabe por quê? Por que faço mal a quem se atreve a me olhar. A minha sujeira, a barba de imperador sem trono, as unhas podres com os restos dos restos do que comi ontem, o mau cheiro que exalo e prenuncia minha morte. Mas eu não posso desviar de vocês. Estou sempre aqui nesse emaranhado de papelão me virando com as sobras de cobertores, a agüentar vocês. Você sabe o que é precisar dormir mais do que o necessário por que sua cama é o chão? Não sabe, né seoporra? Eu vou te chamar de seoporra, tá entendendo? É isso que você é! Eu já não durmo direito, e logo cedo além da luz do sol, chega aquele puto do gari, outro merda que nem você, ele chega assoviando alto fazendo estilhaços no asfalto com a vassoura e a pá numa disposição de quem está de férias, você sabe o que é isso? Nem um travesseiro me livra desse tormento. Depois descem em carreatas as senhoras decrépitas com seus carrinhos de compra. Sabe como é? É este o meu café da manhã. Eu vejo melão, laranja, maçã, pêra descendo a ladeira e me contento só com as cores. Isso me alimenta. Agora até que está bom. Este novo canto não é de todo ruim. Aqui não tem guarda pra apertar com o cassetete a ponta do meu nariz. Dormir na fachada de um banco é mais perigoso. Mas eu ia me esquecendo de você seoporra! É falta de educação deixar o outro desamparado na conversa. Mas não te devo maior confiança sobre meu dia-a-dia. Um dia após o outro é sempre assim. Minha vida é pública, mas ninguém a vê.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Armando Pinto e o Poeta

Viajava o poeta pelo mundo certa vez, quando ao caminhar à beira de uma praia qualquer, num lugar distante, encontrou os manuscritos do venturoso contra-mestre Armando Pinto. Diferente de como se podia esperar, em vez dum pergaminho enrolado dentro duma garrafa esverdeada pela ação do mar e do tempo, nosso viajante espantado ficou ao se deparar com uma caixa velha, no formato atual de uma caixa de cerveja (feita de madeira), para 24 unidades, preenchida com o mesmo número de garrafas. Cada uma contendo um pergaminho. Todas elas vedadas com rolhas. E foi assim que a história deste tal, um conhecido ferrabrás de outrora, chegou à contemporaneidade. De forma fragmentada, é bom ressaltar.
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O poeta se descabelou tentando montar o quebra-cabeça. Acostumado com o sedentarismo desenvolvido ao longo de décadas frente a sua escrivaninha sem vergonha, ele não imaginaria que sua busca por aventuras fosse lhe proporcionar tamanha dose de prazer. Enquanto ele assistia a dois nativos exercerem o ofício de carregadores de caixa (tarefa a qual se mostraram grandes especialistas após receberem um pagamento muquirana do poeta), uma ansiedade lhe percorria a região abdominal, simulando inclusive uma sensação familiar: um desejo de ir ao banheiro, fazer...bem, defecar. Ele tinha uma leve intuição de que havia descoberto coisas valiosas.
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O resumo da ópera foi o descrito a seguir: as 24 páginas reunidas formavam um diário de viagem. E, depois de muito, muitíssimo tempo de análise, não foi difícil perceber que havia algumas pistas entre tais rabiscos. Depois de misturar alguns elementos em uma bebida esquisita, que praticamente arriou o pensamento lírico do nosso anti-herói, eis que finalmente foi possível perceber o ponto nevrálgico do textículo que se anunciava. E, foi assim, devagar, devagarzinho, que o poeta foi descobrindo a figura (esta sim) heróica do grande contra-mestre, destemido dos mares, rei do convés, o lusitano Armando Pinto, que para os íntimos atendia por seu nome completo: Armando Pinto de Madeira.
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Era nas noites de sexta-feira, bebedeira no navio, que esse português sem bigode fazia o queixo de marujo calejado cair, na semanal competição de metragem fálica que muito alterava os ânimos a bordo! Ó, saudoso português! Que num dia de tempestade pensava que o mundo ia acabar e escreveu o que pode, e tudo ao mar arremessou!
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Este prólogo desejava contar,
Como possível foi, desvendar...
A partir de migalhas de pensamento
Que há muito, dentro de garrafas,
Atravessaram o mundo,
E, assim, cortaram o tempo.

domingo, 22 de agosto de 2010

Preciso me encontrar*



Por vezes eu penso se não é o cavaleiro da triste figura é quem estava certo. Engenhoso fidalgo que era, aprendeu a conviver com a nostálgica vida que lhe fora proporcionada. Descobriu, ao longo dos anos, assim como Erasmo em seu Elogio, o doce sabor da loucura. Não precisou escutar Elis Regina para descobrir a previsibilidade humana. Ainda, cantava Elis, somos os mesmos. Tampouco chegou a ler Exupéry para saber que “nada mudou, todavia tudo está mudado”.

Será que Dom Quixote, ao saber que não seria compreendido, preferiu refugiar-se na loucura ao ter que discutir as idéias pré-fabricadas do seu tempo? Questiono-me se, decerto, o modo como ele agia, como lutava contra os moinhos, como, deliberadamente, se portava, mostra um modo diferente de encarar a vida. A loucura como bem supremo. Outrora, pergunto-me se de tanto vivenciar os disparates sociais não se tornou indiferente a eles? Ou se, por ventura, esteja cansado da falta de criatividade humana com os seus repetidos problemas sociais sem “solução” (miséria, ódio, avareza, inveja)?

Valores morais, julgamentos retrógrados vigentes ainda nos dias de hoje. O niilismo que nos põe dúvida na crença. Onde está o soma que Huxley nos promete? Será, ele, a religião? Marx estaria certo ao afirmar a religião como o ópio do povo ou não seria o povo o ópio da religião?

“Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar. Sorrir pra não chorar (...) Preciso me encontrar.”


* Tranqui, o Dom quixote peruano.

Pintura: Dom Quixote por Salvador Dalí.

sábado, 21 de agosto de 2010

Da Escrita

O exílio foi longo mas estou devolta!Fico muito contente em descobrir que esse blog não parou e que os exilados continuam afiados como nunca! Impressionante como saem coisas boas daqui! Volto com um texto sobre um assunto que me agrada muito: o texto em si, ou a produção do mesmo.


O saudoso (e louco) Erasmus de Roterdã já dizia, em um de seus romances do qual não me lembro se quer o título, que: “Todo escritor, antes de ser um bom amante das palavras, é um grande mentiroso.” Palavras fantásticas para alguém que não passa de um mentiroso, não acham?

O fato é que, a arte de mentir (ou de escrever, se assim preferirem) não é uma grande calunia, ou terrível falcatrua como alguns moralistas conservadores devem pensar. Mentir é simplesmente construir uma verdade e essa, assim como a dona história prova muito bem, não precisa necessariamente ter realmente acontecido. Verdade e acontecimento são dois campos bem distintos. No entanto Erasmus não foi o primeiro a questionar o seu próprio ofício, Shakespeare nos fala em sua não tão célebre obra “A Tempestade”, que: “Tudo que está a sua vista minha cara filha, a ilha, o mar, os pássaros, as nuvens, o intrincado Sol, e o sereno céu; tudo isso agora lhe pertence e está tudo aqui anotado, em meu testamento, mas não considere este em demasia, afinal, são só palavras.” Próspero, Duque de Milão, falando a Miranda, sua filha. Tal idéia também aparece em sua célebre obra “Macbeth”, em um de seus trechos derradeiros (se a memória não me falha): “Essa é uma história idiota (ou tola) escrita para idiotas (ou tolos, o que lhe parecer mais adequado). Sábio e ousado era esse Sir. William, mas nem tão original pois, muitos anos antes, na remota Grécia Antiga, um grego careca e barrigudo já afirmara em plena praça de Atenas: “Como se pode fazer uma pergunta a um livro?! Só o autor e seu discurso são importantes, não as palavras amontoadas no papel!”(Sócrates, em algum dos diálogos Platônicos).

O que estou querendo dizer com tudo isso é que muitos autores ao longo da história da literatura já criticaram a arte de escrever (ou de mentir, se preferir), isso não é nenhuma novidade, no entanto muitos escritores ainda relutam em aceitá-la. Podemos citar até casos bem distantes e de estilos muito diferentes como Poe em “Os Sinos” ou Eco com “Não contem com o fim do livro” ou mesmo Durval Muniz com seu “História: A arte de inventar o passado”. Nadando contra a corrente podemos encontrar Borges que na verdade faz uma apologia a arte de escrever, mas esse argumento também não merece muito credito, pois se há escritor mentiroso nesse mundo, esse é Borges. Mestre da falcatrua, lorde da mentira, gênio sem igual!

Minto a mim mesmo dizendo que esse texto está pronto, e então, como em um passe de mágica, ele realmente está!

FIM.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Nem mais um vintém...

No dia 18 de junho nasci. Era meados de 1890, em pleno inverno. Entre ruídos, estampidos e tiros nasci. Talvez não fosse nascimento. Talvez tivesse sido um exílio do ventre materno.

França, Itália, Suécia. Ali, onde fui exilado, digo, nascido, não importava muito. Como falar em Alemanha em tempos de cólera? Não existiam, nessa hora, países. Línguas tampouco. O dialeto era simples e carregava nele um sentido forte: viver. Mesmo que esse viver não significasse muito naquele modo sombrio e rudimentar de vida.

Tive, por infortúnio, que me alistar nas forças armadas mesmo não sendo tão forte assim. E lá chegando vi o front. E nele as trincheiras. E elas, as trincheiras, destrincharam meu ser. Estive à beira do abismo. Perdia-me desesperadamente nas minhas alucinações. A esperança de fuga foi vã. A princípio, pensava no todo como goiaba e me deleitava nos prazeres da maçã. Refugiava-me na maçã. A serpente me era mais agradável. Assim acreditei.


Pensava em minha mãe, mas não a conhecia - bem. Bem conheci - diga-se de passagem - foi Geni. Enquanto estive à espera do término febril da guerra, da grande guerra, de quando em quando eu a visitava. Misteriosa, assim, ela me surgiu, misteriosa, assim, partiu. Antes de sua partida, de sua boca escutei um “adeus, filho.” Se filho de Geni, a prostituta, sou, assim me senti ingrato. Não pela sua profissão – isso não!


Em meio ao front me situei. Suspeitei, depois da partida de Geni, que eu não era senão mais um. Inquieto estive por alguns momentos. De lado a maçã ficou. De nada mais me adiantaria o saber se eu, contraditoriamente, sabia do todo e esquecia de mim. Na guerra, matei, roubei, furtei. A estética e sua discursiva aparência era, por dentro, podre, tal qual uma goiaba contaminada. Foi então que descobri o valor da vida, da minha vida européia: 500 euros e nem mais um vintém...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não seja feita a vontade DELE.

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR (ESSE SIM É DOUTOR!) JUIZ JASON DE LIMA E SILVA DA 2ª VARA KAFKIANA DE PRAGA.


Z!, brasileiro, solteiro, artista da fome, sem número do RG e sem CPF, residente e domiciliado na Rua de nome Rua – Planeta Terra -, vem propor a presente ação em face de Deus, situado (aliás, muito bem situado) no céu, pelos motivos abaixo:


Por ser, segundo a bíblia, filho de Deus, Z!, agora maior de 18 anos, ou seja, absolutamente capaz, pretende processar o suposto pai, uma vez que não houve prescrição (Artigo 197 do Código Civil), por abandono intelectual e material quando Z! ainda era uma indefesa criança em fase de crescimento.

Amparado pelo dispositivo legal da Magna Carta – Art. 229 – no que concerne aos seus direitos, Z! pretende ser ressarcido pelo o que lhe fora assegurado no artigo anteriormente citado:

“Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.”


Quando ainda não estava metamorfoseado em um adulto, o autor viveu em vários lugares e, ao mesmo tempo, em nenhum lugar. Morou embaixo de pontes, ao lado de viadutos, em meio a praças. Esquecido pelo criador do céu e da terra. Oportunidade, assim como a esperança, era uma palavra que nunca ouvira falar. Saudade? Também não a tinha. Não são somente os norte-americanos que não a entendem, Z! também não a entendia. Também não era para menos. Como o requerente podia senti-la se não havia alguém que se preocupasse com ele?

A sociedade era outro elemento que não fazia parte de sua vida. Vivia à margem dela ou, como diz o dito popular, a Deus dará. Não teve estudo, tampouco aprendeu a ler. Ficava fascinado pela imagem do pequeno príncipe, mas Exupéry era-lhe inalcançável. Havia uma barreira social imensa. Um detalhe que, ao contrário da música de Roberto Carlos, não era tão pequeno assim.

Não brincava, brigava. Não dormia, hibernava. Seu passatempo era esperar passar o tempo. Sub-mundo era um lugar de luxo para alguém que, como ele, não tinha um mundo. Talvez viver fosse de longe a droga mais forte que já provara. O efeito dela era contínuo, ininterrupto. Nem precisou chegar aos 100, 19 anos de solidão já bastavam para saber que nada sabia, nada compreendia do sentido de sua existência. Não lia Camus, mas talvez soubesse, desde cedo, que era um estrangeiro. Indiferente aos padrões sociais que regiam. Incompreendido como Franz Kafka.

Pela manhã não via jornal, não tomava seu leite, não comia sua torrada. Dividia tristes momentos com o seu despedaçado eu. Ele nem sabia que tinha um eu interior. Descobriu ouvindo duas senhoras discutindo sobre isso na parada de ônibus. Tinha uma casa muito engraçada: não tinha teto, não tinha nada (familiar, não?). Feita de papelão, não abafava o barulho dos vizinhos. Berros, gritos, chiados, miados, latidos. Uma vizinhança e tanto.

Um belo dia foi abordado por dois missionários evangélicos. Disseram-lhe palavras encantadoras; que existia um lugar em que ele se sentiria em casa, que preencheria seu vazio existencial com a sapiência de um tal Deus. Vá conosco, sem compromisso - afirmaram a dupla. E assim nosso protagonista foi. De um problema social, tornou-se, pós conversão cristã, aprendiz da bíblia. Aprendeu a ler, a escrever, a se portar de modo, moralmente falando, “normal”. Afirmava conhecer, de fato, Ele.

Ao estudar incessantemente os ensinamentos bíblicos, descobriu que era filho de Deus. Agora entendia o porquê de Sófocles, grande tragediógrafo grego, falar que quanto maior a ignorância, maior a felicidade. Pensou como uma pessoa tem a ousadia de gerar um ser e, depois de um processo complexo, deixá-lo sofrer, sentir fome, frio, sem – ao menos – uma justificativa plausível. Aliás, não existe uma justificativa que explique o abandono. Abandono intelectual, material e, além desses assegurados pelo ECA (Estatuto da Criança e do adolescente) bem como pela Constituição Federal, há o abandono sentimental. O afeto, o carinho, o cuidado etc. Não condiz, com efeito, com o discurso cristão. Onde está, nesse caso concreto, o amor ao próximo? E eu que achava que eram somente as leis é que não saiam do papel.

Angustiado, Z!, ciente de seus direitos, resolveu procurar os meios legais para resolver a situação. Acreditou que dessa maneira fosse poupado da demagogia social que lhe fora ensinada na vida religiosa e, por consequência, fosse encerrada a questão entre Pai e filho. Não é por dinheiro ou vingança, é uma questão de justiça. O autor tinha, na infância, um direito assegurado que não fora cumprido. Agora busca nas vias judiciais o ressarcimento do dano. Assim, o requerente procurou-me.

DESSE MODO,

eu, anjo da luz, na condição de advogado do autor Z!, peço, com todas as honras, que V. Exa. determine LIMINARMENTE:

A apreensão de todos livros sagrados que foram distribuídos e faça com que DEUS os reedite. Faça com que ele exclua, dessa maneira, os sete pecados capitais à medida em que eles não foram socialmente aceitáveis, excetuando os fanáticos que, talvez, cumpriram as ordens. Além do mais, o pedido inicial se faz necessário, ao passo que, como se sabe, nenhuma sanção restitui o que fora anteriormente perdido, mas apenas apazigua os ânimos mediante a justiça que será, assim espero, concretizada. Nenhuma fortuna material substitui os valores que foram, no caso de Z!, deixados de lado. O vazio que o corrói até hoje não pode ser restituído por “x” salários mínimos. É uma questão unicamente pessoal, intrínseca de cada ser. Continuando a proposta, caso o réu não considere de bom grado o pedido inicial de reeditar as escrituras, é dada a idéia que ele faça, de próprio punho, um documento alegando que Ele não existe. Parece, de inopino, contraditório, mas veja que se para fins legais Ele não existe, nenhum crime pode ser imputado a Ele. Com isso, ficaria provada a inocência do requerido. *



Assim, requer que Vossa Excelência determine a citação do réu para comparecer à audiência de conciliação a ser designada e, caso não haja acordo, possa oferecer sua contestação, sob pena de serem considerados verdadeiros os fatos alegados.


Nesses termos, pede-se, então, o deferimento.



Florianópolis, 9 de novembro do ano de 2009




Anjo da luz
Nº da Ordem dos Advogados da República Tcheca: 2012












* A parte do pedido foi feita com a ajuda do mestre Jason de Lima e Silva.

Luccas Neves Stangler.

domingo, 20 de junho de 2010

A vida é um conglomerado de coisas sem sentido

A vida é um conglomerado de coisas sem sentido. Será que fomos colocados aqui ou viemos de alguma forma? E se viemos, como fomos parar aqui? Será que o indivíduo existe mesmo? Se estivéssemos sozinhos no mundo (imagine o mundo) como saberíamos que existimos? Penso logo existo? Como saber que a pedra não existe só pelo aparente fato de não pensar? Carregaria ela uma forma de vida a qual sequer sonhamos existir? E por tal fato não a compreendermos e a consideramos sem vida? Ora essa, a pedra nem ao menos se chama pedra! Como ela se reconhece? Existo sem o outro? Quantos sofrimentos e quantas lamentações carregamos em nossos sórdidos corações! Que de romântico só o ideal. Quantas coisas perversas já não pensamos em fazer? Quantas fizemos? Como qualificar tais façanhas como perversas ou não? O caos parece ser a ordem natural das coisas. Talvez compreendê-lo seja entender a própria vida. E que mar sem sentido! E se não há remédio, remediado está! Pra que esta busca desgastante por sentidos? Se vida e morte podem ser a mesma coisa? Alguém deve estar a rir e muito dos humanos! Que pequenos esses seres! E que tristeza! E quanto ela pesa! Que fardo! O cansaço se jogou sobre meus ombros aumentando a famigerada força da gravidade sob o meu ser! Não quero ser mais nada, muito menos tudo isso que já se foi e se fez um dia desses, mesmo que tão longínquo. Como seria poder deixar de existir e ser esquecido completamente? Nem descanso, nem paz, nem cansaço, felicidade, alegria, ou outra coisa qualquer. Sumir. Esquecer-se de si mesmo. Corra! Corra! Corra! Agora ouço uma estranha voz, libertadora?!

- Esquece-te a ti mesmo!

Será que temos vontade? Ou a vontade que nos tem?
Todo esse sentido foi colocado em nossas cabeças? Ou criamos todo sentido que precisamos para cegar a vós da falta de sentido natural das coisas?

- Falta sentido! Falta sentido!

Grita o louco!

- Ainda bem!

Diz-lhe o são.

Caso tudo faça sentido é porque estamos inseridos numa grande mentira, numa grande conspiração, espalhada com primazia, pois o sentido não existe. E quem contou essa mentira? A minoria que um pouco mais sabia, de um nada logo ali que os assistia.

- Onde estou!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!? Ta tudo escuro!

- Não abra o olho!!!!

- O que? Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!
(grito de desespero profundo e desolador, maldita luz!)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Diálogo helênico

Helios de sonhos, o sol oriundo.
Qual Hélade pus-me entre deuses noturnos,
Nutrindo aos humanos em raios agudos.
Ondas de calor a doar-te cá mundo.

Meu nível termal milenar é teu eixo.
De mim só dependem o estalar do teu queixo,
Dos anjos, demônios, perversos e puros;
A experiência, a ciência e os parcos futuros.

Tantos deuses qual a Grécia me pôs por aqui,
Nutrindo tal mundo sem paz a seguir.
Aos que me afrontam dou caso oncológico,
Rei Sol só humano, um triz cronológico...

Desvelo seu sono cotidianamente,
Panóptico dito o andar da corrente,
Frenéticos corpos, incessante torrente,
Desalmados ao ritmo contraproducente...

Hélio te herdo apenas em nome...
De musas suponho um amor secular,
Qual peso carrego no nome a herdar
Descentro do pai em função tão nobre.

Mais corpo que gás é o meu ser soturno,
Humano em vícios, febril de rascunhos.
Em menores graus é que eu fico puto.
Explodo em amores calores fajutos...

“Mil grau” posso ser em 40 fervente..
Meu sonho é utópico, o seu é presente,
Meu ser transitório, o teu quase-sempre.
Também só num triz valho incandescente...

Um bem coletivo, morreu baleado.
De paz cauteloso...
Da paz fustigado...

De paz agressivo
E obcecado
Amor para todos
É um auto-retrato...

Vitimado,
Ancorado,
Apaixonado.
Ingênuo?

Se sol fosses pai do meu eu, eu queria.
Mais amplos poderes que aqueles da lira.
A tudo e a todos poetizaria...
Da paz eu faria nossa mais-valia.

13/06/2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ao mergulhar no emaranhado de lembranças,
Que repousam inertes pelos labirintos minha mente,
Pelos cantos dos corredores e pelos porões onde jazem aqueles arquivos super-pessoais, misturados com milhares de fragmentos sinápticos;
E ao me deparar comigo, só que de outros tempos,
Aquele eu que fui outrora;
Não sei o que há, que não reconheço nada além de um ser estranho
Num corpo familiar.

Teria eu mudado tanto assim? Ou alguém andou revirando minhas memórias?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Declaração a um surrealista

Com todas as forças de minhas entranhas
Tu fostes amado.
Desapegada de razão,
Desapropriada de palavras,
deixei de lado todo o método
e a razão que me impuseram na escola.
Tudo isso para te amar.

Amei-te loucamente
Encontrei-te em meus sonhos
E te perdi no meu inconsciente.

Um dia abri os olhos
e te vi de carne e osso.
Feito de imperfeições,
recheado de defeitos.

Vi meu sonho transformado em realidade,
ignorei as projeções de minha mente.
E pela primeira vez
Amei-te por inteiro.

Assim, repleto de defeitos.
Assim, posto em verdade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Última Flor

Pétalas suaves, acariciadas pelo orvalho matinal,
De um mundo áspero, suicida.

Espero que ela respire, inspirando,
Aquele coração tão só.

Inspirando, sem deixá-lo expirar...
Inspirando, expirando...

E a cada movimento, preparar-se.
E que seja continua, sem lá grandes definições e que...
Inspire enquanto viva, e no extremo, até a expiração definitiva.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da convicção


O ar empírico que circula a minha volta me faz cega às verdades que procuro desvendar, opacidade brutal que venda os olhos de todos a tudo aquilo que somente a leveza da alma é capaz de revelar. Essa necessidade de provas e fatos materiais me sufoca ao olhar do mundo que por vezes eu não pertença. Minhas provas vêm do íntimo, do âmago de meu ser, onde somente eu posso procurar e que por si só se fazem suficientes.

Só carrega o peso aquele que é capaz e só o carrega porque o sente necessário. De todas as pessoas que optam por se livrarem daquilo que lhes pesa, eu, convicta, guardo aquilo que me é grave. O peso de minha certeza liberta meu coração, o peso de minha certeza me oferece a leveza de quem sou. Posso assim seguir plena sabendo que carrego aquilo que me vale em vez de seguir pelo caminho da aparente leveza do esquecimento.

terça-feira, 2 de março de 2010

Sonho de Criança (A menina no espelho)

Escrevi esse texto já faz algum tempo. Na época em questão o recultado final não me agradou. O encontrei em meio aos vários escritos de meu computador a uns dias atrás, o rê-li, e dessa vez, adorei o resultado! Por isso, agora, compartilho esse curto conto com vocês, caros exílados. Espero que gostem.

O título que segue em parênteses é o original, o qual achei melhor modificar.

Acordara. Espreguiçou-se e levantou-se. Caminhou lentamente, daquele jeito arrastando os pés, até o banheiro. Mas, ao se deparar com o espelho algo extraordinário fez com que todos os pelos do corpo da menina se arrepiassem! Ali, logo ali, a sua frente, estava seu reflexo, porém não como tal costumava ser durante os dias anteriores de sua vida. Ali realmente estava projetado seu reflexo, no entanto sua face não estava mais lá! Os cabelos castanhos ondulados estavam, a camisola cor-de-rosa também, no entanto seus olhos, orelhas, nariz, lábios e cílios, lá, já não estavam mais. É claro que a garota pensou nisso com a velocidade de um relâmpago que rasga o céu, enquanto tateava o rosto com a palma das mãos, que ainda estavam lá. Após um período de cerca de 3 a 5 segundos de reflexão a menina começou a sofrer de enorme angústia e aflição que jamais haviam sido vivenciadas de tal forma. Expressou seu enorme desespero da forma mais natural que um ser humano conhece para se desesperar: o grito! E, então; acordou...

Dessa vez acordara mesmo. “Tudo não havia passado de um sonho” – assim a menina queria acreditar. Pulou de sua cama e correu desenfreada para o banheiro onde pode contemplar, enfim, sua face. Jamais havia notado que era assim, - modéstia à parte- tão bela. Passada a aflição se pôs a rir sozinha em seu banheiro, pois afinal de contas havia tido um estranho sonho, digno de ser contado a alguém.

Encontrou seu pai na cozinha. Este estava lendo o jornal do dia enquanto passava manteiga no pão, ou melhor, tentava passar, já que acertava mais o prato que o pão em si. A menina não demorou a interromper seu ocupado pai, afinal precisava muito contar aquele sonho a alguém. Era uma necessidade. Assim como um diabético em crise precisa de insulina, ou um sufocado asmático precisa de sua bombinha, ou seja lá qual for o exemplo que apliquemos, a garota precisava contar sua história! Não faria sentido guardá-la para si.

Contou a história a seu pai e depois pediu a opinião do mesmo. Esse, calmamente, abaixou seu jornal e falou:

“Filha. Você realmente teve um sonho estranho essa noite. Não pelo fato do estranho sumiço de seu rostinho, mas sim porque esse sonho não tem o menor sentido. Ora querida, se você não tinha olhos no sonho como poderia ter visto seu reflexo? E se não tinha boca como poderia ter gritado? Vê minha filha, a ciência não permite tal coisa. Realmente não passou de um sonho bobo... Sonho bobo de criança!” Falava o pai a dar pequenas gargalhadas tímidas enquanto voltava para seu jornal, pão, manteiga e agora uma xícara de café preto.

A menina não pode deixar de sentir-se um pouco frustrada com a falta de entusiasmo de seu pai diante da história, mas, por outro lado, ela não havia sequer pensado em tudo aquilo! “Que homem inteligente é esse meu pai” – ficou a pensar.

Naquela noite a menina voltou a sonhar:


Estava em um mar revolto, em meio a uma tempestade, tentando sobreviver ao afogamento. Entre o caos das águas conseguia avistar, não muito longe, um barco no qual estavam seu pai, mãe e duas queridas primas. Todos estavam a gritar: “Venha Karina, venha logo! Nade depressa! Cuidado, se não a Ciência vai te pegar!”A menina já não entendia mais nada, afinal sobre o que poderiam estar falando? Não demorou muito para que a resposta viesse. Foi puxada, bruscamente, para o fundo do sombrio oceano por um horrendo tentáculo que a levava a uma espécie de boca monstruosa cheia de dentes afiados. Só teve tempo de pensar: “Oh não, a Ciência me pegou! Mas que monstro mais terrível!”, antes de ser devorada de forma atroz pela criatura.


Acordou suada; assustada! Logo percebeu que havia sido outro daqueles sonhos malucos. Estava chovendo lá fora o que explicaria o sonho com água – pensou a menina. “Mas que besteira. Um monstro marinho horrendo chamado “Ciência”, bobagem! Desse sim meu pai irá rir!” Voltou a adormecer, mas nada mais sonhou.

Na manhã seguinte contou o sonho ao pai e foi a ultima vez que fez tal coisa. Dali em diante nunca mais voltaria a ter os sonhos mágicos e fantásticos de seus tempos de infância; nunca mais.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Triste Fim da Mulher de Zeus


O rio corre ali, adiante, logo mais a frente. Onde foram parar as belas sinfonias?!? No mar de rosas chamado ilusão o sol nasce derrotando Set, mas ali, adiante, logo mais a frente a estrela morre derrotada pelo deus das trevas o qual renasce para morrer novamente pela manhã, derrotado, numa luta sem fim, dia após dia. E o que se vê? A ignorância humana prevalecer. E que história é essa? Trata-se da história de mim, de você, de nós, vós, eles! A história não contada na Aka De Mia, mas cantada por nós na embriaguez dionisíaca! Aclamada por nossas almas sedentas de vida nas vertentes abertas das veias da América Latina, Central, Setentrional; do Satélite de Júpiter, da Líbia, da Ασία, da terra que é um Oceano; e das terras de Gelo! O mar ergue-se imponente em sua altivez e majestade sublime, alvo dos olhares temerosos e admirados daquele ser, aquele ser que não sabe ser humano! Este é eu, tu, ele! Insignificantes diante do desejo coletivo do vento em ser forte para destruir tudo e todos a quem ali, mais além, querer aprisioná-lo em um mundo chamado história européia! E sob a voz estrondosa de causar calafrios emanados das fendas expostas de todo o sofrimento joga sua ira “Tu novo velho mundo és apenas um Satélite e o mais deplorável de todos eles! Roubaste dos outros o melhor e disseminaste o pior de ti ao mundo! Que o mundo faça então a sua vontade e lhe devolva todo o pior na mesma intensidade!”. E ao levantar da cama naquela bela manhã de primavera a mulher de Zeus então se deu conta: estava aprisionada em sua própria ilusão de vida criada, a antivida! E foi assim, no grito estridente do desespero aterrorizante de gritar sem conseguir emitir som, invadida da desesperança profunda e do horror maior, na esperança de um socorro o qual nunca viria, que a Europa viu-se no espelho, uma asquerosa mosca desesperada, presa na teia da aranha chamada niilismo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Se sou poeta, por medo não digo;
Pois que meus versos atabalhoados,
Sequer inspiram um reles espírito,
Quem dirá à corja dos letrados!


Poetas muitos se proclamam: uma façanha;
Vejo-os, ó Deus, com demasiado espanto!
Onde vós encontrardes facilidade tamanha?
Se incapaz de versar me corroo em pranto!


Envolto nesta questão, numa tal solidão vespertina,
É que de ar meus pulmões inflo: que agonia!
Berro aos céus, sedento, e questiono à força divina:


Andastes, em vão, espalhando sementes de euforia?
Alhures, provocando noutros auto-enganamento?
Ou é em mim, ó Força, que não reluz talento?


10/02/2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Introdução à vertigem


O primeiro poema do ano nasceu do sono. Nós dois ainda quentes da cama quando uma fresta fina saída da rua trouxe luz para o quarto e ordenou: pegue papel e caneta, ou seqüestrarei sua inspiração. Ele obedeceu. Eu continuei achando que poesia é difícil de alcançar. Uma imprecisão, mesmo que minúscula, carrega tudo para o brega. Terreno ensaboado esse. O que mais vejo é gente escorregando. Tudo ficou ainda mais complicado ao observá-lo tecendo seu poema. Deixa ir, pensei. Vou é ficar quieta, olhando de fora. Ele sussurrava letrinhas baixas à procura da palavra ideal. Descobri que é um artesão das sílabas. A seu pedido, guardei na gaveta por quatro dias, e hoje minha relação com o resultado mudou. Já vi detalhes que o frescor do momento roubou, a cegueira do encanto escondeu. Porém, escrito a escrito, continuo cultivando a sensação de mundo preenchido que cada poema oferece.


Crepúsculo da aurora enfraquecida

O peso do mundo em suas costas não lhe permitia levantar
Prostrada ante a aurora turva da luminária enfraquecida, pensava:
O dia está belo, quero estar lá

E de repente a janela se abriu
Uma profusão de raios luminosos revirou toda a bagunça do quarto
E esse foi o crepúsculo da aurora enfraquecida

E também foi o despertar de um coração que ao se desvencilhar das soturnas amarras
Rodopiou pela casa e foi ser feliz por aí...


Poeta do Exílio
Janeiro de 2010


osgemeos/vertigem

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lamentei por sua dor,

E suas lágrimas que corriam

Sobre as maçãs alvas de seu rosto;

E às dúvidas que a seu espírito assolava.

Senti o alcance de minhas palavras,

Não indo além de um palmo da minha boca...

Era como bater numa rocha.

Era como se sílaba após sílaba,

Minhas palavras se desfizessem no ar.

Sua dor era como uma rocha,

E demonstrou ser resistente...

Mas era um fantasma.

Maldito seja este fantasma.


18/06/09