Quando é noite bonita e as nuvens pintam o céu de laranja-azulado, lembro-me daquela velha senhora: No sítio, em meio às árvores, ela me chamava e sentávamos na varanda; ela na cadeira de balanço e eu na rede - que àquela época ainda era bem cuidada - e ela falava da sua vida. Embora eu sempre dormisse antes que ela chegasse ao final, ela não se cansava. Toda vez que as nuvens formavam figuras laranja-azuladas no céu, lá vinha ela, com a bengala equilibrando de um lado e a rede para meu repouso do outro, me convidando para a prosa.
O início de sua história já me era decorada. Ela tinha um roteiro, e dizia que sua vida daria um bom livro; gargalhava sozinha depois disso. Um dia, pedi que ela contasse sua vida ao contrário, começasse do presente e fosse ao passado. Péssima idéia! Ela fez cara feia, recusou-se e disse: “Se algum dia eu contar a historia ao contrário, você não dormirá e eu não terei desculpas para ficar perto de você numa próxima vez! Se algum dia você não dormir e sonhar com minha história, será porque a contei baseada no hoje, e só o que sei sobre o hoje é que gostaria de ser aquela nuvem laranja, que pinta o céu azul.”
Depois disso, ela ainda balançada, a abracei. Senti uma lágrima escorrer de seus olhos e ela disse: “Eu sabia que você me entenderia, e temi, em vão, o dia em que isso acontecesse!”. No dia seguinte, ela estava sentada na cadeira de balanço, com um sorriso descansado no rosto; morta.
Aqui na redondeza, as noites não escurecem mais como antes. O sol poente traz as nuvens laranjas que decoram o céu azulado; que muitas vezes, figuram como lágrimas que se transformam em sorrisos bondosos, de um céu laranja-azulado.
[homenagem ao trio da travessa em outubro de 2008]
2 comentários:
Há tempos que eu não lia um texto seu, Hellen.
Belo!
Tardou mas não falhou!
Seja benvinda, Hellen!
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