sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O resto é história, ou melhor, a tentativa de um poema feito em poucos minutos.
Sobretudo em homenagem a Poe.
The Birdie
Sob a pia havia um pássaro,
camuflado - na verdade - da cor do granito,
imperceptível,
desatento, adentrei e urinei,
pertubando o pássaro,
o pássaro sob a pia,
Começou a voar, desesperado,
batendo, batendo e batendo,
numa barreira de cristal,
que aos homens cabe chamar de espelho,
mas aos animais não cabe a nada nomear,
batendo e batendo, o pássaro assustou-me,
corri do recinto, cheio de vexame,
não sei qual foi o destino do pássaro sob a pia,
que batia e batia contra o espelho errante,
imagino que ficou por lá,
por mais algum instante,
BATENDO, BATENDO E BATENDO,
apenas isso e nada mais!
Algo muito marcante apesar de fugaz.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
A bíblia de Kronos
- Se não há história sem a escrita, não há experiência sem sofrimento.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
morte onírica
sábado, 1 de outubro de 2011
Loucomelo
entre esses tempos (tempos relativos)
nada faz sentido
abriram-se as portas da percepção
o que são relacionamentos?
o que eu sou?
o que tu és?
angustiante conhecimento
lua cheia, faz sombra
isso vai passar?
quero sair daqui!
acabou, volto ao mundo da realidade
ou seria o mundo da ilusão?
ah, Aurora, veio contigo a doce bitolação.
Camilíssima.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Má sorte
Pra variar, reclamava ele de sua má sorte.
Quase nunca via o sol nascer, mas sempre assistia os primeiros raios do astro nas manhãs ensoloradas e pensava consigo mesmo "here comes the sun" e cantorolava o tchu ru tchu rup. Então se equipava e voava. O chão passa sempre bem pertinho de seus pés. O vento na cara, braços esticados e punhos cerrados. Mais um árduo dia de trabalho sob a luz escaldante do sol. Enquanto trabalha lá, ali, logo adiante, pensamentos mil lhe visantam. ...Ah minhas férias! Quando chegarem farei aquela viagem!...; ... Será que chove hoje?... ...Aquela jornalista se saiu mal ontem na entrevista que vez com a presidenta!rs... E assim, as horas iam passando. As mãos começavam a doer, os braços também e se lamentava "que má sorte a minha ter que ralar tanto, difícil é o caminho dos (as) justos (as), vou chegar atrasado de novo" enquanto olhava o seu relógio de bolso que tirara para observar as horas. O fim do dia ia chegando. Preparava-se para zarpar! Equipava-se de novo; primeiro a jaqueta, depois a mochila, as luvas e por fim o capacete. Era como um ritual. Como o cavaleiro que se prepara para a guerra. Hora de voar. Senta-se no trono de sua equina metálica. Como o tocar dos lábios no momento do beijo, dá-lhe a ignição e faz seu coração motor explodir! E saem apaixonadamente a voar! O chão passa sempre bem pertinho de seus pés! Não o vê nascer e nem morrer, mas acompanha-o se esconder por detrás das montanhas esverdejantes. As luzes da cidade se acendem e guiam-no na escuridão e antes que esta se faça presente vê lagoas, mangues, pássaros, arvóres, cada qual em seguindo seus caminhos enquanto ele faz o seu. E pensa "apesar da fodição do escravo moderno - (trabalhador) aquela bela dama, da Ordem das Ilusões, chamada Liberdade - posso agora desfrutar, nem que seja apenas tocá-la com as pontas dos dedos de uma das mãos seu belo e suave rosto o qual antes somente poderíamos olhá-lo escondido atrás de uma máscara" e nesse instante eis que surge diante de seus olhos, que um dia esta terra fétida há de comer, uma dama ainda mais bela e pergunta a ela:
- Quem és belíssima dama?
- Nem sorte nem azar, sou Fortuna.
... e nisso a roda que a Deusa carregava em suas mãos griou e enfim o Sol se pôs uma vez mais. Mas será que nascerá novamente?
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Matemática celestial
A névoa caia naquelas noites escuras, repletas de criaturas circundantes;
E aquela luz distante era como uma estrela no chão. Perdida no breu noturno com seus sons próprios.
E dentro daquela ilha de luz, tinha música boa, água boa e coração bom.
As idéias eram esculpidas, através da linguagem, dentro de algumas normas gramaticais...
Passava a noite e também o dia. Às vezes mais. Vinha o vento e ia.
E o trabalho seguia. E de todas aquelas idéias mastigadas, cuspia-se o excesso com um pouco de seiva.
E o que sobrava... cozido era com a dor mais pura que havia.
Mas chegava um momento em que toda essa mistura e todo esse trabalho
Tornava-se poesia.
Agora sim poderia se desligar a luz e a oficina deixa de ser uma estrela no chão.
Uma estrela a menos, porém...
Um poema a mais.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Parciais
vou mergulhar nuns poemas velhos e empoeirados para sonhar, dentro dum sono profundo, sonhos confusos, assim, que me confundam profundamente e me façam acordar amanhã, diferente da maneira como despertei no dia de hoje.
Estou me jogando na noite longa, de punhos cerrados – como já é costume;
Mas de coração aberto.
E assim, como quem caminha e não olha pra trás,
Como quem se despede de olhos secos.
Esse sou eu,
Pelo menos na noite de hoje.
Patinando no idílico dos meus breves dias.
domingo, 11 de setembro de 2011
E a vida passa
- e a vida passa (O Coro)
Olhando pela janela da sala um belo dia depois da chuvarada.
- e a vida passa (O Coro)
Presa no meio do trânsito ouvindo música.
- e a vida passa (O Coro)
Criticando mundos e fundos na frente da TV sem fazer nada a respeito.
- e a vida passa (O Coro)
Planejando uma grande viagem.
- e a vida passa (O Coro)
Curtindo links, vídeos, fotos num banco de dados gigante.
- e a vida passa (O Coro)
Pensando em pensar me levantar e fazer alguma coisa qualquer.
- e a vida passa (O Coro)
Chorando sozinha na cama o passado nostálgico.
- e a vida passa (O Coro)
Lamentando os amores da vida que não poderei viver.
- e no corredor das escolhas descartadas passou o casal de mãos dadas junto ao seu filho. Eram A Vida, o Tempo e o Vento respectivamente, e olhando amorosamente o marido e o filho a quem via crescer dia após dia a mãe pensou...
- e a vida passa (O Coro)
O Fim do(s) Tempo(s)
o diálogo
- Oi, eu sou o FIM.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Paixões Cotidianas
domingo, 4 de setembro de 2011
Dos becos de sextas à noite
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Ex-pressão
Alguma ex-pressão voltaria a pressionar toda uma vida a dois. E depois - bem, depois, bem depois... Ex-pressar uma idéia ex-pressa - ela que estava interiormente guardada em alguma parte desconhecida - em alguma forma de aprisionamento infinito ligado à laços eternamente acreditados como convictos e que já não mais são livres, atrofiados numa escravidão talvez experimentada apenas por ex-presos, aqueles que uma vez apaixonados já não mais serão livres, pode não ser tão simples. Ou talvez seja. É o preço. Nada mais é o que parecia. Não é o que parece - nem o que poderia ter podido parecer.
No fluxo caótico do sentir, há um derramamento contínuo na lacuna que d´antes não havia sido preenchida: Sim. É a reposta que antecipa a pergunta que será feita no que tange à essa relação - você está apaixonado?
E o que se derrama, além do gozo, é a paixão.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
King´s view
Teacher Feijó, sorry about my ¨english¨.
King´s view
One king sees. With only two eyes this lonely king sees - sometimes he doesn´t see. Someone sees a king - also with just two eyes. Both of them are see-king. Sick. Sick seek. They are sick as well. Trying to realize that there are too many wrong things with only two eyes each other... But - this word, that means almost the whole world, makes me scare: but - who is who? Who is correct? And what happens beyond god, good and bad?
Luccas Neves Stangler.
London, 22.08.12.
Pintura: Moment of transition - Salvador Dalí.
domingo, 21 de agosto de 2011
Are ¨we¨ the solution?
Com hipóteses
e teorias mil
nada se faz.
Falso microcosmo
que surge.
Com livros lidos
e dezenas de teorias
pouco se constrói.
Ou pouco
se tem construído.
Esfacelam-se letras,
escravizam-se pelas
melódicas vinhetas
e...
E?
Deseja-se um
rastro de (re)conhecimento
pelo pouco que resta:
Pela fresta da janela,
quando o nascer
do sol acontecia,
um casal é visto de mãos
dadas e atadas pela paixão.
Ahh, pai...
chão?
- Não é tão fácil assim, meu filho.
Livros,
teorias,
alegorias - deixe para ocupada pós-modernidade.
- Eu,
meu caro filho,
já estou envelhecendo,
já devo estar envelhecido,
carrego apenas lastros de alguma acumulada idade.
Foto: Jacob Sutton
Edição: We are the solution.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
mim lutar
À MM.
sem me perguntarem como me encontro direi aquilo que deve ser dito: estou de luto. reluto contra tantas forças - imaginárias, fraternas, internas, maternas -, vínculos, círculos e... tudo gira. esse mundo é mesmo desmundado. eu, sujeito-apaixonado-cinza... cinzas... estou de luto e luto! - contra toda podridão preta, contra toda essa maldita zona de incerteza, contra mim - mim? mim não saber nada. dessa situação não sabe se o sujeito cai aos prantos ou ri, ri aos montes ou dá algumas boas gargalhadas. Não! Nada disso! Mim lutará contra o que for preciso, fará o que for preciso, porque mim preciso de você!
Foto: Jacob Sutton.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
A verdade sobre o crítico
- Se ao menos os trabalhadores soubessem de sua forç..
- E quem és tu a falar daqueles quem não conheces? (irrompeu de um canto escuro da taverna empostada voz altiva de estranho ar soberano provocando um silêncio constrangedor a todos que ali estavam).
- Sou...
- Sei muito bem quem és...
Fez uma pausa em sua fala.
- Como tu já vi milhares que sem saber do que falam entopem os ouvidos desavisados de ilusões e quando atigem seu maior desejo - o poder - tornam-se escravos do desejo até ficarem de quatro sem que suas bocas sedentas de citações possam balbuciar qualquer autor europeu de renome adquirido nas contradições fala/ atitude!
- Como ousas!
- Não ouso, faço. E faço de ti agora a máscara quebrada a se romper diante de sua platéia ("amigos")desvendando mais uma falácia desta terra que é a sua existência.
- Tu que vives a gabar-se de seus feitos "revolucionários" não és capaz de admitir as calças borradas e molhadas logo diante do primeiro desafio. Tu jamais terás conselho algum a dar, pois és o oposto de qualquer adjetivo a auto-estima-lo. Escória lhes adjetivariam os mais nefastos seres os quais já pisaram e irão nesta terra pisar. Se sabes dar idéias, criar teorias, debater conceitos, por qual razão não as coloca em prática?
- O sistema, a sua repressão, deixam-me sem tempo! (por fim voltou a se pronunciar a escória, mesmo que gaguenjando em meio ao nervosismo).
- Engana-se a si mesmo com tais palavras. Muitos tantos já por muito menos foram capazes de provar o contrário! Digo quem és tu! És a escória a gritar sem saber o que falar quando ouvira uma palavra "revolução"! A usa sem saber e segue a velha ordem; reproduzir repetindo a palavra que sem entendimento se perde no imenso. Não, não és escória afinal...és apenas mais uma criança, mais um aprendiz, aprendendo a verdade travestida - de mentira - reproduzindo, repetindo, continuando o dado...
Levantou-se lentamente então o homem provocador. A sombra o acompanhava. Seu rosto não se revelava mesmo diante da luz. E a três palmos do homem-criança tirou de sua vestimenta um pequenino espelho de bolso, trazendo para frente de si e então o virou na direção do infeliz. Ao se ver no espelho sua consciência percorreu como que se todas as sinapses possíveis ocorressem naquele cérebro e pensou ver um filme correr diante de si. Tudo o que sempre criticara se revelara neste momento.
- E qual era a imagem refletida Tyche?
- A de uma engrenagem.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Siddhartha
Siddhartha - Hermann Hesse.
sábado, 30 de julho de 2011
A Nova Ordem:
Os povos livres
Os povos livres
A autogestão se resignificou. Denominavam-se Povos Livres. Estrangeiros vinham de outros cantos para conhecê-los. Muitos (as) eram jornalistas. Certa vez um espanhol escreveu para sua coluna num jornal da Espanha “Y así com mucha solidaridad, trabajo e sueño Isso, ellos e ellas vivem cómo “pueblos libres””. As coisas começaram a tomar proporções – talvez – homéricas. A chama agora se espalhava pelo mundo. Frases como “Espalhem a chama dos novos tempos é chegada a era da bem aventurança!”. O mundo moderno estava ruindo. Ruíam também os bancos, os monopólios, as igrejas, o Estado (moderno). Instituições e estruturas em breve logo chegariam ao chão. Agora era questão de tempo.
A Nova Ordem:
Os povos livres
Os povos livres
Aos poucos as pessoas começaram a trocar seus trabalhos, fossem artísticos ou “produções contra a fome”, como gostavam de dizer. No começo era apenas Isso para com seus vizinhos. Mas a coisa ganhou força quando a repressão chegou. As pessoas se uniram ainda mais e passaram a ajudar umas as outras. Queriam outra coisa. Sabiam agora – talvez pela primeira vez em suas existências – que não bastava derrotar o inimigo eminente, a raiz era mais embaixo. As subjetividades, ou melhor, o aprisionamento que os grandes Senhores fizeram delas começam a emergir na mente daquela gente. Era preciso mudar a relação do ser - humano; seja com o seu mundo, suas condições, com as pessoas ao seu redor, com as formas de se produzir, de agir, pensar e falar. De outro modo qualquer apenas dariam continuidade ocasionando no máximo mais uma alternância de poder.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
The diary of a young girl.
The diary of a young girl - Anne Frank.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Coração das trevas
Coração das trevas - J. Conrad.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Um brinde aos amigos
Este escrito que movimenta meus dedos contornando a ponta do lápis para que as palavras voltem a sintonizar meus pensamentos, só tem uma razão de ser;
Agradecer!
Agradeço a estas pessoas,
Pois guardam consigo o sentir que nunca fenece
E se em toda a parte a dor pode estar presente
Elas surgem resplandecentes,
Anestesiando todo e qualquer ferimento,
Compartilhando toda e qualquer alegria,
Vencendo toda e qualquer dor.
E isso é mais do que um simples sentir,
Pois possuí raízes profundas
Construídas de beleza e harmonia,
Oriundas de alegria
Que surgem como estrelas em noites tristes
E me fazem ter a honra de escrever e agradecer
Aos amigos que em minha vida existem.
Feliz dia do amigo!
segunda-feira, 18 de julho de 2011
A relatividade do tempo
Observo o transeunte que só quer transitar
Lá longe ele já vai
Continuo no mesmo lugar.
Olho de um lado ao outro.
Me olho...
Tempo morto.
Duas horas a menos
Duas horas a mais
Duas horas iguais.
Os carros
O bom senso
O respeito
A solidão...
Manter a razão.
Vivamos, pois
O tempo que nos restar
Pois a espera é grande...
GABRIEL P. THIESEN
ABRIL, 2011.
sábado, 16 de julho de 2011
O Catador
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania do Ser mais do que Ter.
Manoel de Barros
sexta-feira, 15 de julho de 2011
A Campanha de Chicago
Exmo. Sr. Almirante de Esquadra Kolesnevik
Aquém
Luccas Neves Stangler.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
O(utro) idiota.
The idiota - F.D.
Aqueles ponteiros em frente ao Tâmisa que faziam o famoso e imponente relógio badalar eram um lembrete: o tempo está a passar, a solidão quiçá. O rapaz da jaqueta de couro que por ali vi passar pegou um ¨takeaway¨ qualquer para fazer, ao que tive a impressão, render seus míseros vinténs. Parecia desconectado de todos aqueles turísticos sorrisos. Devia ser um cidadão londrino, notava-se seu cinza-humor-distanciado. Ao caminhar, via-se em sua mão direita, não tão claramente, mas via-se, um livro com a insígnia, digo, título, que parecia traduzir seu sentimento, como sentia-se naquele instante: O idiota. ¨Bem-vindo à confraria¨, sorriu-me um senhor, algum senhor chamado Dostoiévski - conhecem?
sexta-feira, 8 de julho de 2011
O barão e os educadores: Fábula de um protesto no ducado de Catarina
No dia seguinte, o barão partilhou seu pesadelo a seus conselheiros que, por sua vez, ao barão aconselharam consultar o adivinho. O adivinho acompanhava a comitiva e, no momento, era massageado por dois enormes mouros na sauna de Valência. Ao ouvir a narrativa onírica de seu superior durante o desjejum da comitiva, o adivinho associou as ovelhas aos educadores em revolta no ducado. Rapidamente em acordo, os conselheiros políticos aconselharam ao barão reforçar a guarda de seu palácio e aumentar o controle da milícia sobre todo professor ou parente de professor. A ideia de cumprir a lei ditada pelos juízes reais não veio a ninguém, porque o duque das finanças já havia dito que o orçamento do cofre público de seu ducado não poderia ser usado para arrumar escolas nem dar esmolas aos educadores, pois precisavam manter seus empregados e seus altos postos, suas indumentárias, suas viagens e toda a nobreza de seus palácios. Além do que, se seus filhos, netos e bisnetos precisassem de educação, eles a comprariam, como compravam a retórica de falar muito para não dizer nada.
Já que longe andava o barão, lobo não faltou para substituí-lo em casa. E se fez circular uma lei pelo ducado de Catarina para cada liceu punir professor em protesto, a começar pelo seu bolso, que já andava vazio. A revolta cresceu ainda mais, nas ruas, nas casas oficiais, nas comunicações de todos os lares, entre mercadores e populares nas praças. Quando o barão chegou a seu ducado, mais bochechudo e papudo do que nunca, propôs cumprir a lei descumprindo-a, como se ninguém fosse perceber: no lugar de três moedas de ouro daria cinco de bronze e quanto mais saber possuísse o educador, suprimiria as de ouro e aumentaria as de bronze, segundo as instruções do duque das finanças, cuja lógica nem o próprio barão compreendeu. Acabaria de vez o desejo de estudar por parte dos educadores e a educação publicamente básica do povo continuaria às traças como sempre esteve naquele ducado. O protesto foi ainda maior e o barão gelou em seu trono de cetim. Lembrou-se do sonho e convocou todo seu exército para, durante a madrugada, conceber uma saída para a balbúrdia. Mas suspendeu pela manhã a ordem quando o mensageiro lhe anunciou que também os jovens, incluindo alguns ricos rebeldes, apoiavam o protesto dos mestres públicos. Mandou redigir uma petição aos juízes reais para protestar ilegal o protesto, mas os juízes reais, após alguns dias, argumentaram sobre a legalidade da revolta, e que eles como juízes não gostariam de resolver um problema que era dele como governador de seu ducado. Um ministro do rei, em visita ao ducado de Catarina, disse para o governador simplesmente pagar o que devia. O barão de Catarina apelou a todo ducado em nome de Deus e das crianças e convocou novamente o exército para se preparar e agir oportunamente contra os radicais. Quando dez mil pessoas gritaram e forçaram os portões de seu palácio, enquanto o barão tomava seu café da tarde e comia um bolo de cenoura, as forças armadas já esperavam do outro lado, por trás de grandes pedras e algumas árvores, e ruflaram os tambores, e uma corneta disparou seu sopro e dez mil cassetetes choveram sobre pernas e costas contras os portões e muros da propriedade oficial do barão. Em questão de minuto, só se via bandeiras quebradas e corpos gemidos e, mais ao largo, alguns pernetas e feridos chamavam o ladrão para salvá-los da milícia.
Mas não ficou por isso. A notícia andou pelo reino inteiro, de norte a sul, de
leste a oeste. Entre os professores, havia cronistas, gravuristas, pintores, mães, pais e filhos de família, aos quais trabalho nunca faltou, a dar comida e dignidade à vida, e se possível alegria. A cara de cerâmica do barão aparecia de pau por todos os lados nas bandeiras e nos palanques, e à sua volta ouvia-se um grito único para depô-lo do cargo de governador: barão, barão, volte para o chão, já vai tarde, já vai tarde, perdeu a autoridade. Mas ele não foi deposto e aos professores ao menos se garantiu o soldo básico para o pão nosso de cada dia. Os liceus continuaram do mesmo jeito, os livros no chão, as paredes ainda de pé. Um dos muitos educadores, jovem e orgulhoso de seus livros no colo, arrastava discretamente a perna esquerda pelo corredor e sentia o
peso de uma casa no ombro, mas respirava fundo e empinava o peito, para conduzir altivamente mais dez aulas naquela segunda-feira, quando tudo voltou ao normal.
Duque de Lima e Silva
Freguesia de São José da Terra Firme, inverno de 2011.
- Texto feito pelo Mestre Jason de Lima e Silva, aquele que tenho orgulho de dizer que foi meu professor de filosofia.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Another side from the outsider
Detalhe: desculpe os possíveis erros de concordância e gramática inglesa, prof. Feijó! (04.07.11)