sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Hoje é aniversário de morte de Edgar Allan Poe, um dos meus escritores favoritos. Estava relendo o poema mais famoso dele "The Raven" (o corvo). Minutos depois fui ao banheiro (na faed) e isso aconteceu... não pude deixar de notar a coencidência.

O resto é história, ou melhor, a tentativa de um poema feito em poucos minutos.

Sobretudo em homenagem a Poe.


The Birdie

Sob a pia havia um pássaro,
camuflado - na verdade - da cor do granito,
imperceptível,
desatento, adentrei e urinei,
pertubando o pássaro,
o pássaro sob a pia,

Começou a voar, desesperado,
batendo, batendo e batendo,
numa barreira de cristal,
que aos homens cabe chamar de espelho,
mas aos animais não cabe a nada nomear,

batendo e batendo, o pássaro assustou-me,
corri do recinto, cheio de vexame,
não sei qual foi o destino do pássaro sob a pia,
que batia e batia contra o espelho errante,

imagino que ficou por lá,
por mais algum instante,
BATENDO, BATENDO E BATENDO,
apenas isso e nada mais!

Algo muito marcante apesar de fugaz.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A fundação,

procura fundos de investimento para criar algo novo,
procura amparos simbólicos de cunho intelectual,
procura mostrar às pessoas o que devem assistir e escutar,
procura mostrar o seu valor para a sociedade,
procura ser admirada,
procura fundar os fundamentos básicos da nova cultura,
da cultura de verdade,
mas, precisaria a cultura ser fundada?

Eis o dilema da fundação.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A bíblia de Kronos

Mãos que fraquejavam e que faziam falhar. A tormenta era, com efeito, uma tempestade que impedia compensar o inesperado. In-ten-sa-men-te descompensado. No comforto, uma zona já conhecida, abrira-se uma grande cratera e o auto-controle fora perdido. Os verbos não mais se conjugavam e não mais se sabia - mesmo porque pouco ou nada adiantaria - diferenciar se era ¨feito¨ ou ¨fazido¨. O deus Kronos, do contrário de outros tantos deuses, não esclarecera seus mandamentos através de provérbios ou adágios: ó, desmedida maturidade!


- Se não há história sem a escrita, não há experiência sem sofrimento.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

morte onírica

Sonhei que estava com alguma dessas doenças no organismo,
careca, abatido, debilitado,
olhando as alvas paredes e teto do que deveria ser um hospital,
Amigos e parentes vinham me visitar com mensagens de esperança,
na verdade eram de despedida,
Não apenas como sendo o destino certo dos mortais a morte de parecia algo eminente,
Acordei sem saber o veredicto do sonho.

Desperto; percebi que estava tranqüilo e sereno com tudo isso. Que havia sido um sonho e não um pesadelo! Que tudo aquilo me pareceu normal.

Isso sim me assustou.

Sonhei esse sonho durante um vôo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Loucomelo

Abre-se o portão, fecha-se o portão
entre esses tempos (tempos relativos)
nada faz sentido
abriram-se as portas da percepção

o que são relacionamentos?
o que eu sou?
o que tu és?
angustiante conhecimento

lua cheia, faz sombra
isso vai passar?
quero sair daqui!

acabou, volto ao mundo da realidade
ou seria o mundo da ilusão?
ah, Aurora, veio contigo a doce bitolação.

Camilíssima.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Má sorte

Pra variar, reclamava ele de sua má sorte.

Quase nunca via o sol nascer, mas sempre assistia os primeiros raios do astro nas manhãs ensoloradas e pensava consigo mesmo "here comes the sun" e cantorolava o tchu ru tchu rup. Então se equipava e voava. O chão passa sempre bem pertinho de seus pés. O vento na cara, braços esticados e punhos cerrados. Mais um árduo dia de trabalho sob a luz escaldante do sol. Enquanto trabalha lá, ali, logo adiante, pensamentos mil lhe visantam. ...Ah minhas férias! Quando chegarem farei aquela viagem!...; ... Será que chove hoje?... ...Aquela jornalista se saiu mal ontem na entrevista que vez com a presidenta!rs... E assim, as horas iam passando. As mãos começavam a doer, os braços também e se lamentava "que má sorte a minha ter que ralar tanto, difícil é o caminho dos (as) justos (as), vou chegar atrasado de novo" enquanto olhava o seu relógio de bolso que tirara para observar as horas. O fim do dia ia chegando. Preparava-se para zarpar! Equipava-se de novo; primeiro a jaqueta, depois a mochila, as luvas e por fim o capacete. Era como um ritual. Como o cavaleiro que se prepara para a guerra. Hora de voar. Senta-se no trono de sua equina metálica. Como o tocar dos lábios no momento do beijo, dá-lhe a ignição e faz seu coração motor explodir! E saem apaixonadamente a voar! O chão passa sempre bem pertinho de seus pés! Não o vê nascer e nem morrer, mas acompanha-o se esconder por detrás das montanhas esverdejantes. As luzes da cidade se acendem e guiam-no na escuridão e antes que esta se faça presente vê lagoas, mangues, pássaros, arvóres, cada qual em seguindo seus caminhos enquanto ele faz o seu. E pensa "apesar da fodição do escravo moderno - (trabalhador) aquela bela dama, da Ordem das Ilusões, chamada Liberdade - posso agora desfrutar, nem que seja apenas tocá-la com as pontas dos dedos de uma das mãos seu belo e suave rosto o qual antes somente poderíamos olhá-lo escondido atrás de uma máscara" e nesse instante eis que surge diante de seus olhos, que um dia esta terra fétida há de comer, uma dama ainda mais bela e pergunta a ela:

- Quem és belíssima dama?
- Nem sorte nem azar, sou Fortuna.

... e nisso a roda que a Deusa carregava em suas mãos griou e enfim o Sol se pôs uma vez mais. Mas será que nascerá novamente?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Matemática celestial

Era uma oficina que funcionava à noite.
A névoa caia naquelas noites escuras, repletas de criaturas circundantes;
E aquela luz distante era como uma estrela no chão. Perdida no breu noturno com seus sons próprios.
E dentro daquela ilha de luz, tinha música boa, água boa e coração bom.
As idéias eram esculpidas, através da linguagem, dentro de algumas normas gramaticais...
Passava a noite e também o dia. Às vezes mais. Vinha o vento e ia.
E o trabalho seguia. E de todas aquelas idéias mastigadas, cuspia-se o excesso com um pouco de seiva.
E o que sobrava... cozido era com a dor mais pura que havia.
Mas chegava um momento em que toda essa mistura e todo esse trabalho
Tornava-se poesia.
Agora sim poderia se desligar a luz e a oficina deixa de ser uma estrela no chão.
Uma estrela a menos, porém...
Um poema a mais.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Parciais

Nesse anoitecer eu espero que sim;
vou mergulhar nuns poemas velhos e empoeirados para sonhar, dentro dum sono profundo, sonhos confusos, assim, que me confundam profundamente e me façam acordar amanhã, diferente da maneira como despertei no dia de hoje.
Estou me jogando na noite longa, de punhos cerrados – como já é costume;
Mas de coração aberto.
E assim, como quem caminha e não olha pra trás,
Como quem se despede de olhos secos.
Esse sou eu,
Pelo menos na noite de hoje.
Patinando no idílico dos meus breves dias.

domingo, 11 de setembro de 2011

E a vida passa

- e a vida passa (O Coro)

Olhando pela janela da sala um belo dia depois da chuvarada.

- e a vida passa (O Coro)

Presa no meio do trânsito ouvindo música.

- e a vida passa (O Coro)

Criticando mundos e fundos na frente da TV sem fazer nada a respeito.

- e a vida passa (O Coro)

Planejando uma grande viagem.

- e a vida passa (O Coro)

Curtindo links, vídeos, fotos num banco de dados gigante.

- e a vida passa (O Coro)

Pensando em pensar me levantar e fazer alguma coisa qualquer.

- e a vida passa (O Coro)

Chorando sozinha na cama o passado nostálgico.

- e a vida passa (O Coro)

Lamentando os amores da vida que não poderei viver.

- e no corredor das escolhas descartadas passou o casal de mãos dadas junto ao seu filho. Eram A Vida, o Tempo e o Vento respectivamente, e olhando amorosamente o marido e o filho a quem via crescer dia após dia a mãe pensou...

- e a vida passa (O Coro)

O Fim do(s) Tempo(s)

o diálogo

- Oi! Eu sou o T E M P O Senhor de todos os Tempos!(proferiu o T E M P O em voz empostada ao desconhecido que ali chegou).
- Oi, eu sou o FIM.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Paixões Cotidianas

Os olhares se encontram e quase de imediato, dispersam-se. Era a vergonha. Ele tenta olhar de novo e, para sua surpresa, encontra os olhos dela olhando os olhos dele. Dessa vez dura um pouco mais, algo entre cinco ou dez segundos. Um período curto, é verdade, mas para ele pareceu eterno. Ele arrisca um sorriso e ela baixa o olhar. Ele não sabe mais o que pensar. Fica olhando e vasculhando as quinquilharias da lojinha fingindo algum interesse enquanto ela atende um casal que acaba de entrar. Será que valeria a pena ter perguntado o preço de alguma bugiganga só para puxar assunto? "Teria sim!" conclui enquanto procura a saída. Saindo ele se arrisca novamente: "Adeus, moça." com um breve aceno de mão. Ela responde mas, sem palavras. Ao invés disso com um monte de dentes cintilantes; com um sorriso. Poucas coisas são tão belas quanto um sorriso. Ele mal podia acreditar! Qual seria o nome dela? Quantos anos teria? Será que gosta de comida japonesa? De perfume? Seria fã de cinema? Fez as perguntas a si mesmo enquanto dava a ignição no carro. Tudo era felicidade e naquele instante ele só tinha certeza de duas coisas: a primeira era que ele estava apaixonado pela moça da lojinha de quinquilharias! A segunda era que não tornaria a vê-la.

Nota do autor: Texto um pouco antigo mas gosto dele, pois é singelo e bem sincero, para falar a verdade. É um presente ao aniversário do blog que foi alguns dias atrás.

domingo, 4 de setembro de 2011

Dos becos de sextas à noite


As danças e as bailarinas
chapinhando as sapatilhas nas poças
de água são feitas
e distribuem-se pela calçada.

A dançarina atravessa a rua
o ponto de ônibus está vazio
os carros passam indiferentes
buzinas tocam
dióxidos, monóxidos
carbono.

As placas indicam lugares
mas as direções são múltiplas
e multifacetada é a pedra que brilha em seu pescoço
O vento brinca nos cabelos
e os olhos estão arregalados
procurando o caminho no escuro do beco.

Tem amigos voltando na contramão
ela não se importa porque não é por eles que procura
Segue seu rumo e acha enfim o que seus olhos pediam
uma visão que inspira
olhos que fitam
decifram
e que depois descrevem.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Ex-pressão

(¨Ah, doutor¨, dizia, ¨gostaria tanto de aprender a me expressar¨. Falava disso a Rieux todas as vezes que o encontrava. Nessa noite, o médico, ao ver o funcionário municipal partir, compreendeu de repente o que Grand tentara dizer: sem dúvida, ele estava escrevendo um livro ou algo semelhante.) A peste - Albert Camus.




Alguma ex-pressão voltaria a pressionar toda uma vida a dois. E depois - bem, depois, bem depois... Ex-pressar uma idéia ex-pressa - ela que estava interiormente guardada em alguma parte desconhecida - em alguma forma de aprisionamento infinito ligado à laços eternamente acreditados como convictos e que já não mais são livres, atrofiados numa escravidão talvez experimentada apenas por ex-presos, aqueles que uma vez apaixonados já não mais serão livres, pode não ser tão simples. Ou talvez seja. É o preço. Nada mais é o que parecia. Não é o que parece - nem o que poderia ter podido parecer.

No fluxo caótico do sentir, há um derramamento contínuo na lacuna que d´antes não havia sido preenchida: Sim. É a reposta que antecipa a pergunta que será feita no que tange à essa relação - você está apaixonado?


E o que se derrama, além do gozo, é a paixão.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

King´s view



Teacher Feijó, sorry about my ¨english¨.



King´s view


One king sees. With only two eyes this lonely king sees - sometimes he doesn´t see. Someone sees a king - also with just two eyes. Both of them are see-king. Sick. Sick seek. They are sick as well. Trying to realize that there are too many wrong things with only two eyes each other... But - this word, that means almost the whole world, makes me scare: but - who is who? Who is correct? And what happens beyond god, good and bad?


Luccas Neves Stangler.
London, 22.08.12.


Pintura: Moment of transition - Salvador Dalí.

domingo, 21 de agosto de 2011

Are ¨we¨ the solution?


Com hipóteses
e teorias mil
nada se faz.

Falso microcosmo
que surge.

Com livros lidos
e dezenas de teorias
pouco se constrói.

Ou pouco
se tem construído.

Esfacelam-se letras,
escravizam-se pelas
melódicas vinhetas
e...
E?

Deseja-se um
rastro de (re)conhecimento
pelo pouco que resta:

Pela fresta da janela,
quando o nascer
do sol acontecia,
um casal é visto de mãos
dadas e atadas pela paixão.

Ahh, pai...
chão?
- Não é tão fácil assim, meu filho.

Livros,
teorias,
alegorias - deixe para ocupada pós-modernidade.

- Eu,
meu caro filho,
já estou envelhecendo,
já devo estar envelhecido,
carrego apenas lastros de alguma acumulada idade.




Foto: Jacob Sutton
Edição: We are the solution.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

mim lutar


À MM.

sem me perguntarem como me encontro direi aquilo que deve ser dito: estou de luto. reluto contra tantas forças - imaginárias, fraternas, internas, maternas -, vínculos, círculos e... tudo gira. esse mundo é mesmo desmundado. eu, sujeito-apaixonado-cinza... cinzas... estou de luto e luto! - contra toda podridão preta, contra toda essa maldita zona de incerteza, contra mim - mim? mim não saber nada. dessa situação não sabe se o sujeito cai aos prantos ou ri, ri aos montes ou dá algumas boas gargalhadas. Não! Nada disso! Mim lutará contra o que for preciso, fará o que for preciso, porque mim preciso de você!




Foto: Jacob Sutton.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A verdade sobre o crítico

- Se ao menos os trabalhadores soubessem de sua forç..
- E quem és tu a falar daqueles quem não conheces? (irrompeu de um canto escuro da taverna empostada voz altiva de estranho ar soberano provocando um silêncio constrangedor a todos que ali estavam).
- Sou...
- Sei muito bem quem és...
Fez uma pausa em sua fala.
- Como tu já vi milhares que sem saber do que falam entopem os ouvidos desavisados de ilusões e quando atigem seu maior desejo - o poder - tornam-se escravos do desejo até ficarem de quatro sem que suas bocas sedentas de citações possam balbuciar qualquer autor europeu de renome adquirido nas contradições fala/ atitude!
- Como ousas!
- Não ouso, faço. E faço de ti agora a máscara quebrada a se romper diante de sua platéia ("amigos")desvendando mais uma falácia desta terra que é a sua existência.
- Tu que vives a gabar-se de seus feitos "revolucionários" não és capaz de admitir as calças borradas e molhadas logo diante do primeiro desafio. Tu jamais terás conselho algum a dar, pois és o oposto de qualquer adjetivo a auto-estima-lo. Escória lhes adjetivariam os mais nefastos seres os quais já pisaram e irão nesta terra pisar. Se sabes dar idéias, criar teorias, debater conceitos, por qual razão não as coloca em prática?
- O sistema, a sua repressão, deixam-me sem tempo! (por fim voltou a se pronunciar a escória, mesmo que gaguenjando em meio ao nervosismo).
- Engana-se a si mesmo com tais palavras. Muitos tantos já por muito menos foram capazes de provar o contrário! Digo quem és tu! És a escória a gritar sem saber o que falar quando ouvira uma palavra "revolução"! A usa sem saber e segue a velha ordem; reproduzir repetindo a palavra que sem entendimento se perde no imenso. Não, não és escória afinal...és apenas mais uma criança, mais um aprendiz, aprendendo a verdade travestida - de mentira - reproduzindo, repetindo, continuando o dado...

Levantou-se lentamente então o homem provocador. A sombra o acompanhava. Seu rosto não se revelava mesmo diante da luz. E a três palmos do homem-criança tirou de sua vestimenta um pequenino espelho de bolso, trazendo para frente de si e então o virou na direção do infeliz. Ao se ver no espelho sua consciência percorreu como que se todas as sinapses possíveis ocorressem naquele cérebro e pensou ver um filme correr diante de si. Tudo o que sempre criticara se revelara neste momento.

- E qual era a imagem refletida Tyche?
- A de uma engrenagem.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Siddhartha

¨Siddharta had begun to feel the seeds of discontent within him. He had begun to feel that the love of his father and mother, and also the love of his friend Govinda, would not always make him happy, give him peace, satisfy and suffice him. He had begun to suspect that his worthy father and his other teachers, the wise Brahmins, had already passed on to him the bulk and the best of their wisdom, that they had already poured the sun total of their knowledge into his waiting vessel; and the vessel was not full, his intelect was not satisfied, his soul was not at peace, his heart was not still. The ablutions were good, but they were water; they did not wash sins away, they did not relieve the distressed heart.¨




Siddhartha - Hermann Hesse.

sábado, 30 de julho de 2011

A Nova Ordem:
Os povos livres

Emergem os Povos Livres


A autogestão se resignificou. Denominavam-se Povos Livres. Estrangeiros vinham de outros cantos para conhecê-los. Muitos (as) eram jornalistas. Certa vez um espanhol escreveu para sua coluna num jornal da Espanha “Y así com mucha solidaridad, trabajo e sueño Isso, ellos e ellas vivem cómo “pueblos libres””. As coisas começaram a tomar proporções – talvez – homéricas. A chama agora se espalhava pelo mundo. Frases como “Espalhem a chama dos novos tempos é chegada a era da bem aventurança!”. O mundo moderno estava ruindo. Ruíam também os bancos, os monopólios, as igrejas, o Estado (moderno). Instituições e estruturas em breve logo chegariam ao chão. Agora era questão de tempo.

A Nova Ordem:
Os povos livres

A Mudança está em curso


Aos poucos as pessoas começaram a trocar seus trabalhos, fossem artísticos ou “produções contra a fome”, como gostavam de dizer. No começo era apenas Isso para com seus vizinhos. Mas a coisa ganhou força quando a repressão chegou. As pessoas se uniram ainda mais e passaram a ajudar umas as outras. Queriam outra coisa. Sabiam agora – talvez pela primeira vez em suas existências – que não bastava derrotar o inimigo eminente, a raiz era mais embaixo. As subjetividades, ou melhor, o aprisionamento que os grandes Senhores fizeram delas começam a emergir na mente daquela gente. Era preciso mudar a relação do ser - humano; seja com o seu mundo, suas condições, com as pessoas ao seu redor, com as formas de se produzir, de agir, pensar e falar. De outro modo qualquer apenas dariam continuidade ocasionando no máximo mais uma alternância de poder.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

The diary of a young girl.

¨Margot and I started to pack. I packed the craziest things! This diary first, then handkerchiefs, schoolbooks, a comb and some old letters. Memories are more important to me than dresses.¨


The diary of a young girl - Anne Frank.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Coração das trevas

¨Vocês não conseguem entender? E como poderiam - com um calçamento de pedra debaixo dos seus pés, cercados por vizinhos gentis prontos a acudí-los ou lhes pedir algum favor, caminhando a passos contados entre o açougue e a polícia, no terror sacrossanto do escândalo, do cadafalso e dos hospícios - como podem vocês imaginar a qual região particular das eras primevas os pés desimpedidos de um homem podem levá-lo quando se depara com a solidão - a solidão absoluta, sem polícia - quando se depara com o silêncio - o silêncio absoluto, sem a voz do bom vizinho para ser ouvida e lembrar-lhe num murmúrio a opinião pública?¨




Cora
ção das trevas - J. Conrad.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um brinde aos amigos

Este escrito que movimenta meus dedos contornando a ponta do lápis para que as palavras voltem a sintonizar meus pensamentos, só tem uma razão de ser;
Agradecer!
Agradeço a estas pessoas,
Pois guardam consigo o sentir que nunca fenece
E se em toda a parte a dor pode estar presente
Elas surgem resplandecentes,
Anestesiando todo e qualquer ferimento,
Compartilhando toda e qualquer alegria,
Vencendo toda e qualquer dor.

E isso é mais do que um simples sentir,
Pois possuí raízes profundas
Construídas de beleza e harmonia,
Oriundas de alegria
Que surgem como estrelas em noites tristes
E me fazem ter a honra de escrever e agradecer
Aos amigos que em minha vida existem.

Feliz dia do amigo!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A relatividade do tempo

Trânsito lento.
Observo o transeunte que só quer transitar
Lá longe ele já vai
Continuo no mesmo lugar.
Olho de um lado ao outro.
Me olho...
Tempo morto.
Duas horas a menos
Duas horas a mais
Duas horas iguais.
Os carros
O bom senso
O respeito
A solidão...
Manter a razão.
Vivamos, pois
O tempo que nos restar
Pois a espera é grande...

GABRIEL P. THIESEN
ABRIL, 2011.

sábado, 16 de julho de 2011

O Catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania do Ser mais do que Ter.

Manoel de Barros

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A Campanha de Chicago

Abaixo, segue a Carta de um jovem Capitão-Tenente ao seu Almirante, na Guerra chamada de "Recomeço do Mundo". A Guerra entre os Internacionalistas e Pós-Modernos deu-se a partir de 2055, após forte desentendimento dos Estados Americanos (Latino Americanos) contra parte dos Estados Europeus e os Estados Unidos. A Guerra deu-se pela disputa do monopólio de recursos naturais já escassos no Globo Terrestre. Os Internacionalistas eram comandados por uma frente chamada de Intenacional, os Europeus eram comandados por uma ala chamada de "Pós-Modernos", que tinha maior força na França. A França tinha aniquilado os Ingleses e todos que se opuseram a política Global incentivada por parte destes Pós-Modernos. A vitória dos Pós-Modernos era dada como certa por todos os cantos do mundo, porém, ainda havia uma última resistência as ações globalizadoras. O conteúdo da carta abaixo, é escrito em um local onde pode-se chamar berço da Globalização. Visto que os Internacionalistas já tinham sido derrotados em seus próprios territórios (América Latina, Rússia e China), a esperança era surpreender em uma ofensiva no território inimigo.

Exmo. Sr. Almirante de Esquadra Kolesnevik

É com pesar que informo a baixa quase que total do 9º Regimento Eric Hobsbawn. Fomos pegos de surpresa pelo inimigo. Os pós-modernos atacaram com a 1º Cavalaria Jacques Derrida por Indiana, e não havia o que fazer se não recuar para o Oeste. Não bastasse o ataque da Cavalaria Pós-Moderna ao sul, ao Norte no Lago Michigan fomos cercados pela Esquadra Francesa. A tática deles é incompreensível, tudo o que tinhamos de informação tática não se concretizou. O inimigo nos esmaga cada vez mais para o Oeste, precisamos que o 1º Regimento Karl Marx, nossa última defesa no Colorado, os detenham por pelo menos 3 semanas, caso contrário, não conseguiremos recrutar Camaradas para reestabelecer o 9º Regimento, e o nosso grupo de refugiados será descoberto nos Canyons de Utah. 
Caso o Senhor permita a audácia deste Oficial de baixo escalão, lembro que as condições para paz honrosa por parte dos Pós-Modernos não nos afetará, visto que para eles, neste Pós-Guerra não teremos mais fronteiras separando as Nações, logo, o exílio não será praticado.  Os cidadãos simpatizantes do Mundo Internacionalista serão exterminados, deixando em terra somente os Cidadãos Globais e Militares do Oficialato Internacionalista. No caso deveremos migrar para o Exército Pós-Moderno. Creio que o melhor caminho seja ceder as exigências. Não teremos de nos esconder, e ninguém saberá das nossas identidades, visto que o banco de dados do Pós-Modernos deverá homogeinizar todos os Militares do Mundo. Precisamos no entanto fazer o juramento e esquecer o que fomos e quem amamos. Sacrificaremos nossos Cidadãos e suas ideologias momentâneamente, mas a causa não está perdida, visto que ainda temos uma última cópia do nosso "Manifesto". Precisamos de agilidade para salvar o futuro, a semente ainda está guardada.

Capitão-Tenente Aguiar
Chicago, 07 de Maio de 2068

TOA

Aquém

Antes de consumir as letras grafadas, favor escutar Only you - Portishead. Grato - e volte sempre!




Nas glândulas exócrinas, exala a solidão.
Na corrente sanguínea, o veneno-efeito-menina-má.
Aliás, ela, além-mar é, com todas as letras, além-má.
Doses intravenosas de melancolia:
agora já se tornara um escravo, não há mais volta,
não há - sequer se pensa em tal ousadia - em alforria.
A arrogância-juvenil-portátil havia se esfacelado:
sabia quase nada de quase tudo.
Vin-de-bordeaux-le-fotegnac-claret-appelation-bordeaux-contrôlée-merlot-cabernet-produit-de-france-3-5-0-0-6-1-0-0-4-6-2-9-2-e-1-3-%-e-7-5-c-l.
Entre o português, algum inglês tupiniquim e um pretenso etílico francês...
Nada.
E Ela, como é sabido, é o todo.
E o fim - uma palavra d`antes nunca utilizada no sentido denotativo da expressão - ...
Bem, o fim.
Que se viva antes de todo e qualquer fim!


Luccas Neves Stangler.
Escrito numa Londres isolada - aquém de várias realidades.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O(utro) idiota.

¨Oh, so you are a philosopher; but you aware of any talents, any ability whatever in yourself, of any sort by which you can earn your living? Excuse me again.¨
The idiota - F.D.







Aqueles ponteiros em frente ao Tâmisa que faziam o famoso e imponente relógio badalar eram um lembrete: o tempo está a passar, a solidão quiçá. O rapaz da jaqueta de couro que por ali vi passar pegou um ¨takeaway¨ qualquer para fazer, ao que tive a impressão, render seus míseros vinténs. Parecia desconectado de todos aqueles turísticos sorrisos. Devia ser um cidadão londrino, notava-se seu cinza-humor-distanciado. Ao caminhar, via-se em sua mão direita, não tão claramente, mas via-se, um livro com a insígnia, digo, título, que parecia traduzir seu sentimento, como sentia-se naquele instante: O idiota. ¨Bem-vindo à confraria¨, sorriu-me um senhor, algum senhor chamado Dostoiévski - conhecem?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O barão e os educadores: Fábula de um protesto no ducado de Catarina

O barão de Catarina não estava presente quando tudo aconteceu. Caso tivesse a oportunidade de estar presente no início da grande revolta, provavelmente se faria ausente, como as moedas guardadas para a educação no cofre de seu palácio. Os juízes dos reis já haviam decidido em sentença lavrada e assinada o cumprimento da lei não cumprida em muitos ducados do reino: o pagamento de um soldo mínimo aos educadores. O barão de Catarina viajava com seus conselheiros públicos e privados quando a decisão foi imposta pelos juízes reais. Os educadores resolveram em assembleia parar onde tudo começou: na própria lei. E os liceus foram fechados. Enquanto isso, o barão voava de um lado para o outro para conhecer a tecnologia dos trens, das carruagens e dos zepelins com os quais viajava, com a finalidade de encontrar alguns outros barões dispostos a trazer tal tecnologia para os ricos de seu ducado. E numa dessas velozes viagens, enquanto o mensageiro falava sobre o protesto dos professores, o barão brindou um vinho do porto e arrotou discretamente uma perdiz, nas proximidades donde Colombo partiu outrora. À noite, o barão sonhou com ovelhas, brincando pacificamente sobre a relva. De repente, o céu escurecia e as ovelhas estavam de olhos vermelhos, cerrados pelas negras olheiras. Derrubavam as cercas e entravam sujas nas casas oficiais de seu ducado. Algumas espumavam pela boca. Pareciam loucas por alguma razão. O barão despertou assustado, seu pijama de listas amarelas estava inteiramente molhado e o quarto cheirava a suor. Acordou a baronesa, que suspirava profundamente com o maxilar inferior solto, para lhe perguntar se ela havia tido também um sonho com ovelhas. Você está louco, perguntou, e voltou a dormir.
No dia seguinte, o barão partilhou seu pesadelo a seus conselheiros que, por sua vez, ao barão aconselharam consultar o adivinho. O adivinho acompanhava a comitiva e, no momento, era massageado por dois enormes mouros na sauna de Valência. Ao ouvir a narrativa onírica de seu superior durante o desjejum da comitiva, o adivinho associou as ovelhas aos educadores em revolta no ducado. Rapidamente em acordo, os conselheiros políticos aconselharam ao barão reforçar a guarda de seu palácio e aumentar o controle da milícia sobre todo professor ou parente de professor. A ideia de cumprir a lei ditada pelos juízes reais não veio a ninguém, porque o duque das finanças já havia dito que o orçamento do cofre público de seu ducado não poderia ser usado para arrumar escolas nem dar esmolas aos educadores, pois precisavam manter seus empregados e seus altos postos, suas indumentárias, suas viagens e toda a nobreza de seus palácios. Além do que, se seus filhos, netos e bisnetos precisassem de educação, eles a comprariam, como compravam a retórica de falar muito para não dizer nada.

Já que longe andava o barão, lobo não faltou para substituí-lo em casa. E se fez circular uma lei pelo ducado de Catarina para cada liceu punir professor em protesto, a começar pelo seu bolso, que já andava vazio. A revolta cresceu ainda mais, nas ruas, nas casas oficiais, nas comunicações de todos os lares, entre mercadores e populares nas praças. Quando o barão chegou a seu ducado, mais bochechudo e papudo do que nunca, propôs cumprir a lei descumprindo-a, como se ninguém fosse perceber: no lugar de três moedas de ouro daria cinco de bronze e quanto mais saber possuísse o educador, suprimiria as de ouro e aumentaria as de bronze, segundo as instruções do duque das finanças, cuja lógica nem o próprio barão compreendeu. Acabaria de vez o desejo de estudar por parte dos educadores e a educação publicamente básica do povo continuaria às traças como sempre esteve naquele ducado. O protesto foi ainda maior e o barão gelou em seu trono de cetim. Lembrou-se do sonho e convocou todo seu exército para, durante a madrugada, conceber uma saída para a balbúrdia. Mas suspendeu pela manhã a ordem quando o mensageiro lhe anunciou que também os jovens, incluindo alguns ricos rebeldes, apoiavam o protesto dos mestres públicos. Mandou redigir uma petição aos juízes reais para protestar ilegal o protesto, mas os juízes reais, após alguns dias, argumentaram sobre a legalidade da revolta, e que eles como juízes não gostariam de resolver um problema que era dele como governador de seu ducado. Um ministro do rei, em visita ao ducado de Catarina, disse para o governador simplesmente pagar o que devia. O barão de Catarina apelou a todo ducado em nome de Deus e das crianças e convocou novamente o exército para se preparar e agir oportunamente contra os radicais. Quando dez mil pessoas gritaram e forçaram os portões de seu palácio, enquanto o barão tomava seu café da tarde e comia um bolo de cenoura, as forças armadas já esperavam do outro lado, por trás de grandes pedras e algumas árvores, e ruflaram os tambores, e uma corneta disparou seu sopro e dez mil cassetetes choveram sobre pernas e costas contras os portões e muros da propriedade oficial do barão. Em questão de minuto, só se via bandeiras quebradas e corpos gemidos e, mais ao largo, alguns pernetas e feridos chamavam o ladrão para salvá-los da milícia.

Mas não ficou por isso. A notícia andou pelo reino inteiro, de norte a sul, de
leste a oeste. Entre os professores, havia cronistas, gravuristas, pintores, mães, pais e filhos de família, aos quais trabalho nunca faltou, a dar comida e dignidade à vida, e se possível alegria. A cara de cerâmica do barão aparecia de pau por todos os lados nas bandeiras e nos palanques, e à sua volta ouvia-se um grito único para depô-lo do cargo de governador: barão, barão, volte para o chão, já vai tarde, já vai tarde, perdeu a autoridade. Mas ele não foi deposto e aos professores ao menos se garantiu o soldo básico para o pão nosso de cada dia. Os liceus continuaram do mesmo jeito, os livros no chão, as paredes ainda de pé. Um dos muitos educadores, jovem e orgulhoso de seus livros no colo, arrastava discretamente a perna esquerda pelo corredor e sentia o
peso de uma casa no ombro, mas respirava fundo e empinava o peito, para conduzir altivamente mais dez aulas naquela segunda-feira, quando tudo voltou ao normal.



Duque de Lima e Silva
Freguesia de São José da Terra Firme, inverno de 2011.



- Texto feito pelo Mestre Jason de Lima e Silva, aquele que tenho orgulho de dizer que foi meu professor de filosofia.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Another side from the outsider

I wasn't myself, but when am I myself? I'm not singular, I'm plural, I'm ''myselves"...Sometimes I'm Siddhartha, sometimes I'm from Sparta, I really don't know. Thinking about the life, the real life - but what is real? The bad girl is real, yeah, the bad girl is real. However, where is she? By the way, where am I? In a grey city, sharing with another outsiders grey experiences. Grey citzens. Forget it, it`s a nightmare; nope, it was a dream, a sweet dream without sugar - whatever!


Detalhe: desculpe os possíveis erros de concordância e gramática inglesa, prof. Feijó! (04.07.11)