sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Luccas and me


I write to you because you don´t reply to my messages. I haven´t seen you for ages. Perhaps because until this moment you were hidden or could not be seen from where I stand. I can´t stand that. Talking isn´t always my scene and this doesn´t help much. Who helps? I am not a kind of person who wants to be different or extraordinary. I only wish I could be more sincere to you. I am not dishonest at all, but I feel like not being totally honest with you. It isn´t anything to do with money. Some quid can only build up empires. I do not want to build empires, to put myself into walls and wear black lies, I mean, ties. I would like to live in an open sort of place, where people would have an open mind. I am not saying equal beings if this means to you an open mind. This is different. Again, I am far from you. Many distractions. The sun invites us to an absurd life. It isn´t necessary to kill an arab as an algerian did. There are only few rules. This game is endless. There isn´t any language as it is proven how harmful a word can be. Just feelings and gestures. As you get older you loose some hair and, as a sort of reward, you get more experience, which is fair enough. You cannot always get the best of both worlds. Travelling towards a peaceful place where I left my soul. There, the past is a detail. The future is a fib. There is only the present, now. Now, I write to you this in order to invite you to find me in this place. If you think carefully, you might find me in no time. I hope to see you soon, Luccas.

3rd of October 2012.

sábado, 6 de outubro de 2012

Tears and saints

"Is it possible that existence is our exile and nothingness our home?"


Emil Cioran, Tears and Saints

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Kafka

<<... o verdadeiro caminho passa por uma corda que não está estendida no ar, mas quase ao nível do solo. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida...>> 

Franz Kafka.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um conto sobre a pesca

Outro dia, ainda em 2012
Apesar do frio, nada de peixe ainda. Os ânimos já se exaltam e as notícias
dão conta de duas graves desavenças no mar. Falam em troca de foguetes
entre barcos que disputavam o mesmo cardume.
É triste ver os semblantes abatidos. Homens de cenhos cerrados de olhos no
mar, com os ouvidos  prontos para o alerta dos olheiros. Esses últimos,
velhos (e têm que ser, pois são os que enxergam o peixe embaixo d´água do
alto das rochas, perto da cruz )que deveriam estar perto de um fogão à
lenha, mas estão em seus postos ,tiritando e rezando em voz baixa.
Quando chega um barco, as pessoas correm para o trapiche. Pode ser que
esse tenha tido sorte - não entra nas cabeças  locais, que não se trata de
sorte apenas, mas de tecnologia, pois  embarcações maiores, equipadas com
sonar, estão voltando carregadas. Mas eles preferem se esconder atrás de
frases do tipo: meu avô sempre pescou assim e sempre deu certo, por que
deveria eu mudar ?Então, ao se aproximarem mais do canal, a ponto de verem
os semblantes dos embarcados, o desânimo volta ante a  tristeza expressa
nos mais velhos, e a revolta nos mais novos.
O engraçado é  que quando chegarem os peixes, o padre, que nunca vi
ajudando a remendar uma rede ou tirar água de um bote, vai rezar missa na
praia e dar um jeito de dizer que a responsabilidade da pesca ter sido boa,
é das orações feitas na sua igreja. E claro, das doações. É o mesmo papo de
sempre: puxar a tainha para minhas brasas.
É a chegada anual dos abutres.
Primeiro o clero, fantasiado de púrpura, com a cruz, o turíbulo e os
meninos de branco cantando baixinho. Sob o manto da caridade, as maiores
tainhas são desviadas para a igreja. Nem os caras do caminhão frigorífico
se atrevem a dizer não aos peixes do padre.
2012 e essa instituição de assassinos, ainda mantém sua influência e sua
espada suspensa sobre as comunidades mais primitivas. Eles temem que Deus
não lhes forneça mais o alimento do mar, se não alimentarem os inúteis
servidores daquele se proclama o vigário de Cristo na Terra.
Depois chegam as velhas, se empurrando e empurrando os outros aos gritos,
exigindo aquilo que acham ser seu direito só por serem velhas. Normalmente
trazem as meninas mais crescidas com elas. É quase uma oferta de troca:
minha neta pelos teus peixes.
Nada de novo, pois já a cândida Eréndira  teve uma avó assim. Realmente
não é de se estranhar que em breve veremos essas mesmas meninas se trocando
por um baseado, uma carona ou uma prenda qualquer. 
Esses dois grupos são os piores, uma vez que escolhem o que levam. No
entanto não costumam demorar,  de formas que acabam sem atrapalhar muito.[
Isso sem contar que sempre ficam um dou dois nos porões - a postos, com os
olhos para cima, no aguardo do pagamento-enquanto uma garota de nome
impronunciável, entra de vestidinho no barco, para escolher os peixes.]
Como sabes, também sou defensor da prostituição. As prostitutas, além de
espalharem prazeres, cumprem um papel social. Defendem a virtude das moças
casadoiras, dos tarados que existem pelo mundo. (gente como uns e outros,
por aí, que eu conheço).
Mas antes que me perca, volto ao trapiche, pois é ali que se dá o ato
final.
O povo cerca o trapiche. Uns querem olhar apenas. Outros querem filmar,
fotografar e comentar. E há os que querem alguma vantagem, seja em peixe ou
bebida.
O fato é que a multidão quer chegar perto, então deixa apenas um corredor
estreito para as caixas. Se trabalha, tendo que vencer obstáculos, tendo
cuidado com uma criança aqui ou um vira latas ali. Chega uma hora que o
peão se irrita. E é irritante mesmo ter alguém na frente, atrapalhando o
andamento do serviço.
Depois quando um cara, exausto, com fome, com sede, com frio e já tendo
visto seu quinhão diminuir, indo parar nas mãos de quem não fez nada para
merecê-lo, atira uma caixa cheia em direção aos pés de um curioso, o chamam
de grosso.
Procuro me manter afastado, afinal nem gosto muito de comer peixe.

Mestre Jonas.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

poema para um amor bobo

poema para um amor bobo

para te escrever
pedi ajuda ao velho barreiro
pois esperar a inspiração da primavera
é tempo demais
e tempo demais já passou
no rádio jazz
goles no gargalo
para o poema de amor que virá, ou que já está aí
assim, sem métrica e sem rima
apenas com vontade
o que acontece que só te vejo sob a luz do sol?
quero te ver sob o luar
amanhã não tem lua
não importa
vamos passear?

Camilíssima
lua nova deste agosto

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Por nós (o sonho que não será realidade)

Nós somos fortes como a chama acesa,
e o motivo da sua beleza,
somos o sol que lá no céu desponta,
e mais...

Somos o povo que um dia acorda,
e com força vai e rompe a corda,
somos a gota d'agua que transborda,
e mais...

Nós somos o vento que flui das montanhas,
que na sua alma se entranha,
e mesmo que a gente perca, a gente sempre ganha,
e mais...

Nós somos um vinho já envelhecido,
e um povo amadurecido,
que cresceu, viveu e vai morrer,...
por nós.

Osmar L. Neves

18/11/1980

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Canção do vento

O vento levou,
levou seu sorriso,
seu resto de vida,
sua alma, sua dor.

Eu quero essa cor,
que cobre o seu rosto,
que leva e me traz,
e me enche de amor.

Os corpos se unem,
mas as almas divergem
e gritam chorando de dor.

Eu quero essa flor,
essa flor que é tua alma,
que em outrora da tua vida,
na minha vida brotou.

Amei isto tudo,
sua alma,
seu corpo,
seu jeito de amar,
que o vento levou.

Agora eu imploro,
imploro ao vento,
que traga o passado,
pra a você voltar.

Na vida das vidas,
no sonho dos sonhos,
nas noites de luar.


Janeiro de 1976.
Osmar L. Neves

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quero ajudar

Quero ajudar a construir o mundo futuro
e colocar a minha pedra
no lugar exato e na hora certa:
Quero conter a pressa de ajudar,
deter os passos vãos e as mãos sôfregas,
ordenar minhas paixões de desajustes,
ser vigilante, compreensiva,tenaz.
Deixar no grandioso edifício a minha pedra
com a mão segura para que ela não vacile
e role nos espaços, tombando com um ruído soturno,
feita escombro, antes de ser coluna..
Quero deixar segura a minha pedra
Altos frisos a revestirão,
esculpidos por sábias mãos alheias.
Mas, pequena e anônima, direita e firme,
ela estará lá dentro ajudando.
Quero ajudar a construir o mundo futuro,
o mundo sem fascismo e sem miséria,
luminoso, rasgado, justo.
Quero permanecer aberta
e colocar a minha pedra
no lugar exato e na hora certa.

Maura de S. Pereira

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Divinas barbaridades

Foste criado sem pai. Quanto à sua mãe, dizem que foi virgem. Cresceste à época do Império Romano. Bebeste cálices de vinho e dividiste um pão entre muitos. Foste, como teus irmãos, traído. Alguém era preciso trair para que tu pudeste ser proclamado filho do Soberano. Cometeste um atentado contra à vida; foras, assim, libertado. Fizeste aquilo o que teu solitário Pai consideraria heresia. Mesmo assim, proclamam-te como aquele que nos libertou. Como legado, deixaste a moral para conduzir teu povo, a descrença na materialidade do ser, dúvidas naquilo em que deveríamos fazer. Aqueles que ousam padecer n'alguma cruz, tal qual tu fizeste, para se tornar alguma espécie de martírio, estão sujeitos às pedras que possivelmente serão lançadas pelos teus fiéis pecadores. Provavelmente os mesmos que outrora contigo fizeram. Fúnebres passagens - arcas, anjos e outras tantas barbaridades - são documentadas em um livro chamado de sagrado. Em teu santo nome, guerras e destruição. Decretaram a morte do teu pai - em meio àqueles que te mal diziam, um corajoso alemão decretara aquilo que já se sabia: nós, nossos valores e nosso criador nascemos tortos. Seres imperfeitos, cadáveres ou, por assim dizer, nascidos mortos. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Considerações sobre o mesmo evento ilusório

Aurora neste caso específico é um nome próprio. Se fosse sinônimo de amanhecer deveria ser muito especial para merecer um texto. Ademais, raramente os tenho visto. O que digo é sobre uma moça, amiga minha, que me veio visitar na tarde de hoje sob o intuito de atravessarmos uma trilha em direção a uma praia vizinha.
A tal trilha era no meio de um mato alto, em boa parte do percurso, e subia um belo de um morro, e somente atrás deste podíamos avistar a praia vizinha: a praia da galheta. Bem, Aurora é uma bela moça de pele branca, boa altura e cabelos escuros e cacheados. Adora esse tipo de atividade. O que ela não previu enquanto planejou a aventura foi o mau tempo que encaramos. Quando iniciávamos a trilha havia sobre nós um sol respeitável, porém o acompanhava um vento forte e traiçoeiro. Não tardou para que caminhássemos sob água e sobre lama. No entando, isso em nada diminuiu o prazer da caminhada. Observamos paisagens lindíssimas, experimentamos uma fruta, uma espécie de goiaba em miniatura – chamada Gabiroba. E, de maneira pessoal pudemos experimentar um contato muito pessoal com a natureza circundante. De quebra, na volta conhecemos o Bento. Um jovem falante e bem humorado que nos narrou algumas histórias daquelas matas. Coisas sobre antepassados de alguma cultura indígena e alguns lugares ritualísticos.

Aurora veio
e finalmente começou o dia
atravessou a mata
a chuva e a lama,
e também muitas pedras
pedras grandiosas, inclusive.
depois da aurora fez-se noite
e ficou a sensação
de alguma ausência.


*Qualquer semelhança com algum nome citado no texto não passa de mera coincidência.

terça-feira, 29 de maio de 2012


"Confidência"


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No úmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

 Mia Couto

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O ser e a roda

Apesar de afirmarem que a roda é uma criação humana, as forças naturais contestam. Estás enganado, diriam. Retrucam diretamente e com pouca eloquência. Dizem que a invenção da humanidade ou da roda são apenas distrações e que pouco importa saber quem os criou. O mistério está contido na simplicidade do funcionamento dos mecanismos: Se giras, ela gira, nós giramos. É preciso chamar a atenção para a existência de diferentes caminhos, caminhos de todos os tipos, por onde se pode passar. Também existem atalhos, mangues e detalhes. Os primeiros giros são tortos. E a caminhada é longa – dizem que duraria uma existência para perceber que o elemento causador da mudança é a erosão. Vai, vem, vai e volta. Retornos pelo um mesmo caminho feitos de forma diversa solidificam aquilo já consagrado como eterno: a roda gira.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Mais nada

Aspirantes inspirações seriam digitadas. Um dia elas foram datilografadas e um pouco antes escritas. Todas elas sentidas. Vestidas, enfeitadas e com tudo o que tem direito. E o que tem de esquerda. Criadas por alguns poucos. Politicamente incorretos. Abertamente aspirantes. Declaradamente apaixonados, mal humorados. Amadores, vetaranos e vertebrados. Exílio dos alfabetizados, mal educados, sem modos, com rótulos. Mais nada.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O teatro do absurdo

E se a vida
for um palco,
e se tudo em
que acreditamos
for absurdo,
e se as nossas
crenças forem enganosas,
o que será de nós?

E se tudo
que foi ensaiado
for em vão,
e se tudo
o que foi ensinado
estiver simplesmente
resumido entre
o sim e pelo
complexo não,
o que será de nós?

E se tudo
estiver acabado,
e se a cena do teatro
estiver acabando,
o que seria de nós se não existisse a paixão?

Aplausos.
Se a vida
for mesmo um palco,
gente entra,
gente sai,
há ainda muito a ser ensaiado:
A vida nos prega cada peça...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carta ao amigo oculto

Quando irrompe uma dificuldade,
no céu dos pensamentos
as idéias são como nuvens
e as emoções como tempestade.

Nessas horas em que o peito se aperta
e todo olhar ao redor é em vão
não há consolo, não há um ombro...
logo quando mais se precisa.

E se a vida fosse como o mar
a tristeza seria onda.

Mas também há aquele que socorre.
Que estende o braço prum corpo caído
e o suspende, e lhe presta auxilio...
que ausculta o peito ferido.

Pra este eu faço reverência,
Pois este diz o que ninguém tem coragem
em vez de se esconder...

E por mais que doa forte,
Seu dizer contém presença
de verdade.

E verdade é luz no céu dos pensamentos.



13-02

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O retorno de Melquíades

- What do you see when you don't see anything? (Deleuze)




Pela calçada que tantos andastes, agoras deslizas pela esperança branca que sobrepassa o cinza-esquizofrênico e a negra desilusão transmitida no dia-a-dia doentil e endêmico. As cores da vida são frutos de Kairos. As cores da morte são divindades de Chronos. Adiciona-se o branco no negro e obtém-se o cinza. O sobreviver como parte da existência. O sofrer quando necessário para a transcendência do ordinário. A descrença sofridamente sobrevive. A consciência é despertada: Aparício observa tudo enquanto toma um mate bem quente em seu paradeiro - já é suficientemente letrado para saber que cada exílio carrega um prazo. Acusam-no. Quem? Difícil de encontrar. Situam o conforto por desconhecer o exílio. Esquecem da renúncia. Diziam que não sobreviveria. Agora, depois de aproximar-se da amiga solidão, aguarda o retorno de Melquíades. Tornara-se, tal qual o amigo que está prestes a retornar, quase um cigano; sem a habilidade de prever o futuro, no entanto. (02.09.12)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Movimentos

Barbaridades civilizadas sugerem um entendimento barroco. O renascimento do individualismo feudal popularizou-se, expandiu-se e acabou se tornando democrático. Socializou-se a idéia de que o presidencialismo é uma anarquia só. Criaram, por sua vez, reinos e céus onde deuses supostamente governam com o auxílio de angelicais - nossos caros amigos ou amigos caros para nós? - parlamentares. Elementares governos. Desgovernados elementos. Clãs, grupos, ideologias e outras tantas formas de movimento. Em detrimento da essência, a nossa aparência é aparentemente construída pelos nossos detritos do ser... A ciência, uma religião pagã, comprova: a terra está em movimento, mas os que nela parasitam, digo, habitam...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Um poemeto assim, tristonho
é coisa de esconder, de guardar;
e enquanto não amadurecer...
só se deve mostrá-lo em sonho.

E mesmo no sonho há restrições!
Se alguém vier depreciá-lo,
Mesmo sendo pessoa sonhada,
e dizer: carece de boas fundações.

Não! Não o fazeis, pessoa sonhada!
Cuidai! Não é sonhado, o poema...
Além do que, cada poema é uma estrada...
E pode ter uma vida como tema!

Entretanto, sendo assim o guardadei.

Quando o mesmo maduro for,
Já deve expô-lo! E o dispor, e
Por ventura, se vier um ser para
O poemeto maldizer,

Pensai, autor, pensai resignado:
Certamente o poemeto já está maturado!
Não estaria sua beleza ligada a seus versos naturais?
Ou devo excusar-me alegando questões laterais?


23/12/2011.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas que voaram pelo ar
Transmitiram todas as nuances
Bailaram pelos meus cabelos
Flutuo

O artista pegava pelo ar as notas com seus ouvidos
E com suas mãos transmitiu em óleo
Amarelos em Dó, vermelhos em Sí
E azuis em Sol

Ele fizera notas virarem planetas e pessoas em meios tons.

A meus olhos não agradaram, porém vi de novo.
Mirei distintamente
Aquela mistura de tons em música e cores em notas
Que em meus olhos e meus ouvidos passaram e em meu corpo envolveu
Notas e tons dançando em minha volta
Cores que tocam e notas que colorem minha alma

Escrito por Lina em 23/12/2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Certezas do duvidoso profeta Kafka



Mergulho na imensidão dos pensamentos que são arrastados pelo fenômeno das idéias opacas - d´uns confusos sonhos - que ainda restam. O perfume da Menina Má amada paira no ar e o livro pára na cabeceira. Quando possível, o acordar se faz; depois do contato com transeuntes oníricos, no entanto, renasce a convicção de estar duvidando: e se não houver esperança?




- Há esperança, diria Franz Kafka, mas não para nós.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ponto-ação ou lupanares da meia-noite.

(Re)Constituídos de pontos. Destituídos de outros tantos. Pontos de visão, pontos de fusão, pontos de encontro. Pontos. Separados por algumas vírgulas, ponto-e-vírgulas ou dois pontos: Não, definitivamente não estamos prontos. Há os poréns, todavias, quase todas as vias a viver. Erros crassos de uma ortografia às avessas da (ir)real situação: constituídos de pontos, escrevinhadores de trágicos contos e senhores da nossa embriagada razão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ai de mim, ai de nós, bem-amada,
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.

Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.

Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem o outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,

até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado.

Pablo Neruda - Soneto LXII

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Nova Ordem:
Os povos livres

A chama lançada se espalha


Com a chama lançada o fogo se alastrou pelos quatro ventos da Terra. Na volta do controle da produção – os (as) trabalhadores (as) (a princípio apenas de subsistência) – passa-se a ver que a imagem na parede da caverna é apenas sombra; agora já enxergam a luz; logo enxergariam a saída. Após essa primeira etapa desse processo – o qual talvez só Isso pudesse vislumbrá-lo como um todo de uma pequena parte – decidiram por ocuparem as fábricas. E assim o fizeram. Uma após outra passavam a ganhar vida novamente tendo como alma os (as) trabalhadores (as)! De fato tudo apontava para uma revolução! E mais! Uma revolução sem armas, iniciada por simples gesto e pela palavra embutida no ato!!!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Estranho ser que caminha adiante

O estranho. Aquele ser que caminha lá, ali, logo adiante de mim. O estranho que não tem ainda corpo definido, que és ainda fruto de toda dúvida e incerteza. O estranho me dá califrios. Mas porque o estranho? Não o conheço. De onde vem, pra onde vai? O que quer? Ou não quer? É o estranho que me causa estranha estranheza do....es..tranho? Inominável sensação de um desconforto prazer. É angústia e também desejo. Sobretudo, escravo da curiosidade. Se não entendo, desdenho. És-me estranho. O que dizem na TV. És-me estranho o que vejo em você. És-me estranho a apatia no mundo. É estranho o túnel ficando escuro no seu fim. És-me estranho o que está por vir. És-me conhecido o estranho lá, ali, logo em mim.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Labirinto

Estando no profundo não estar ,

De um lugar sem ter ,

Num espaço sem ser,

No disvirtuar-se referenciais,

Não sem rancores e resignação ,

Conjugando-se o escárnio sócio- existencial ,

Quotidiano ,

O júbilo sócio-univérsico ,

Segundal ,

Num misto sublime do sobre-viver ,

Vou-me , às gargalhadas , me fodendo .

A foder .



- Edmundo Arruda.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sedução

Assim, de repente,

Formosa você se fez.

Presente, penetrando,

No âmago d’eu !

Sem pedir licença, sem

Respeitar limites,

Desafiando-me a saltar

Numa bela aventura inóspita.

Paraquedista do amor

Em terras ignotas.



- Edmundo Arruda.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Círculo de Fadas

Clara estava se sentindo tão implosiva e destruída que poderia se chamar Hiroshima. Era implosiva, porque se fosse ex, tudo à sua volta já teria ido se juntar ao pó das estrelas.

Pegou um pouco de pó de fadas e fez um círculo ao redor de si. Dos cogumelos de chapéu vermelho que via em seus sonhos, o único em que morava um duende foi justamente o que ela tirou do solo. E o duende pediu que ela lhe desse algo em troca. Ela era uma bruxa, sabia mexer com as palavras pra arquitetar feitiços e fetiches. Ela teceu pra ele um encantamento em forma de versos, e remexeu sua saia à procura de ervas mágicas e jogou algumas delas ao vento. Do chapéu ele tirou algumas folhas, e nelas escreveu suas vontades. Eles juntaram tudo isso em seus punhos unidos, e atearam fogo em gravetos numa fogueira onde jogaram ervas e palavras escritas.

Estava feito o encanto, e o duende sem casa teve que se mudar.

A bruxa desfez o círculo, e tudo sumiu. Ela era novamente Hiroshima, e se fez forte pra poder voltar.

Das pedras do lago de perto de casa ela fez um colar, com contas e conchas e cheiros, e ofereceu-o à Deusa do Lago, pedindo que tivesse o poder pra transitar entre os mundos com seus círculos de fada, e que pudesse sempre voltar, com a mente sã de feiticeira. Mente sã de feiticeira não é mente sã de pessoa. É a mente de uma mulher mágica.

A Dama do Lago entendia isso, e veio até a bruxa com lágrimas nos olhos, dizendo que a missão de Clara não era límpida como seu nome, e Clara chorou, chorou muito. Mas a Dama abençoou, e, Deusa que era, permitiu que a jovem bruxa acessasse os mundos quando quisesse.

Pela primeira vez, Clara implodiu de fato.

De novo girou no ar jogando das mãos brancas o brilhante pó de fadas, e o círculo se formou no chão, transportando-a para um novo mundo. O duende achara outro cogumelo para morar, e deu-lhe um pedaço pra que ela ficasse do tamanho dele. Como uma Alice mais velha, a bruxa ficou pequenina, e de repente se sentiu uma menina, conduzida pelo duende até aquele pequeno universo que ela não conhecia.

Dos encantamentos que proferiram, poucos ela guardou a memória. O tempo e as palavras ditas se perdiam fácil naquele paralelo, e ela só lembrava de imagens e flashes que ela trazia pra si em sonhos encantados. Clara implodiu pela segunda vez, e o duende sorriu satisfeito, e dos suspiros deles dois o ar se encheu.

A bruxa desfez o círculo e sumiu.

Na terceira vez que voltou ao campo de cogumelos, teve uma visão. Viu um duende que cantava na beira de um riacho pra uma linda sereia. Ele trazia consigo uma flauta que tocava com maestria, e eles juntos faziam a música mais bela que ela jamais escutara. Ela própria se fazia em canções, e se traduzia em melodias profundas e melancólicas. E de repente ela se sentiu uma intrusa num mundo de magia que não era dela, e se sentiu tão humana que resolveu voltar.

Pela quarta vez ela formou sua roda mágica. Sem se importar com melodias, ela se lembrou das lágrimas da Deusa e segurou bem sua saia comprida, pra que ela não se arrastasse. Andou por entre as folhas e o gramado pipocado de vermelho e se fez pequena novamente.

No fim de tudo, a bruxa virou um cogumelo atômico, e o duende foi morar nela.

Quando o sol se pôs naquele mundo, ela já era tão pertencente àquilo tudo que não se via sem seu portal. Agora ela pedia proteção e paz. E sabia que não teria mais. Nunca deveria ter brincado com pó de fadas. Mas estava se tornando uma delas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Transição

Afundei meus dessabores no fundo de um copo de cachaça. Sentada no bar, eu ainda podia sentir no cabelo o perfume barato daquele que fora meu acompanhante durante a noite. Provavelmente eu nunca mais veria seu rosto barbado, mas aquilo não me inquietava, queria mesmo era ficar sozinha com meu copo, lembrando e esquecendo as memórias que um dia foram minhas. Já não era mais a mesma, mas também não sabia quem seria. Por um momento senti-me invadida por um imenso nada; um vazio tão grande que corroía qualquer espécie de sentimento que um dia pudesse ter existido em mim. Não sei quanto tempo fiquei daquele jeito, imóvel. Presa entre a inércia de meu passado e futuro, meu presente era o momento em que me esvaziava de mim mesma.

Voltei a mim quando senti uma fisgada no ferimento em meu punho; ainda sangrava, mas o corte não poderia ter sido tão fundo assim. Foi a dor, como em tantas outras vezes, que me trouxe de volta a realidade. Mas eu tinha resolvido abandonar a dor e ignorei a ardência que sentia no punho. E então me lembrei do tango, minha nova vida merecia um tango.

Atravessei a cidade até chegar numa das poucas casas onde era tocado um bom tango e no caminho arquitetei minha mudança para Buenos Aires. Era na cidade argentina onde eu deveria morar a partir dali, era lá que minha vida começaria novamente. Ah! Se o tango falasse. Diria que me chamou naquela noite de outubro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Queria saber...(uma história nostálgica de um) sobre-tudo.




Saber diferenciar entre o azedo e o amargo tem sido uma experiência ácida - tem transbordado a noção do real. Existiria, dr., algum exilados anônimos?


- Acabou a consulta sem ser respondido; colocou novamente seu sobre-tudo, queria saber sobre-tudo, mas resignou-se, levantou-se da cadeira do consultório psiquiátrico, atravessou a rua e caiu. Caiu em mais uma armadilha da vida. Fazia frio, aliás.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As rochas

Não sei quais foram os motivos do acaso, ou do destino - que para mim são a mesma coisa - me fizeram querer sentar naquelas rochas mas, foi exatamente o que fiz. Sentei sobre as rochas que repousam à séculos no famoso Rio da Prata. Ali a solidão era absoluta e veio como uma boa e velha amiga a qual eu não via há muito tempo. Estranho, pois a solidão normalmente me parece algo pavoroso e que deve ser evitado. Mas não ali, não sobre as rochas. O único som que existia era o barulho das águas golpeando as rochas. Golpeando e recuando, golpeando e recuando, golpeando e recuando, tudo muito lentamente. Toda essa extraordinária situação me fez pensar; e pensei...

Pensei em meus vícios, erros e desilusões; pensei as cidades; pensei as viagens e no real motivo por trás delas - se é que existe algum -; pensei em todos os ibéricos que morreram ao longo dos anos naquele rio, naquela fronteira, naquelas rochas, e em todos aqueles que prosperaram graças àquelas barrentas águas; pensei em como o espanhol é uma bela língua, que sinto grande prazer em escutar, mas não o dos argentinos que vomitam as palavras em uma velocidade absurda. Prefiro a cadência dos uruguaios mas, belo mesmo deve ser o dos espanhóis como nos filmes, ou melhor, películas, de Almodóvar. Pensei nos amores antigos, nas novas paixões, e nos amores platônicos jamais realizados - os mais belos entre os anteriores -; pensei na solidão, na velhice e na eminente morte, e fiquei com medo. Parei de pensar. Resolvi que deveria fumar um cigarro. Sim! Ali me parecia um ótimo lugar para fumar um cigarro. Ascendi, traguei, e como preso por uma terrível maldição, voltei a pensar. Lembrei que certa vez um amigo me falou que o tempo de fumar um cigarro é de aproximadamente 7 minutos. Ele deveria estar errado pois aquele cigarro me pareceu eterno. Digo eterno pois essas coisas não podem ser calculadas em minutos, segundos ou horas. Ali o tempo dos humanos não importava e os relógios não passavam de meros brinquedos. Ali importava o tempo das outras coisas: do vento, das águas, do Sol, das rochas. As rochas me fizeram refém de seu tempo.

Quando acabei de fumar o cigarro eterno, e por mais que isso pareça contraditório, ele acabou; pensei em todos os seres - não só os humanos - que ao longo do "tempo das coisas" se sentaram sobre aquelas rochas e como elas não deveriam dar a mínima importância para isso. Para elas fui só mais transeunte, um passageiro, um viajante, apenas mais um que sentou e foi embora, assim como as águas que a golpeiam. Enquanto elas ficam ali, estáticas, imóveis, apenas sendo rochas. Bem sabemos que, diferente dos elefantes, as rochas não tem boa memória. Decidi fazer com que elas se lembrassem da minha passagem.

Deixei a bituca do cigarro eterno ali, sobre elas, e parti. Alguns dirão que depredei o meio ambiente, que agredi a natureza, ou coisas desse escalão. Em minha defesa argumento que fiz uma intervenção. Intervi nas rochas assim como elas interviram em mim. Troca justa. E que a bituca do cigarro eterno continue ali provando minha passagem, até que a chuva a apodreça; ou que o vento do Prata a carregue para lugares que minha mente nunca se quer ousou sonhar; ou então, quem sabe, até que as rochas virem pequenos grãos de areia na orla da praia, esses que nada mais são do que sombras das antigas rochas.

30/09/2011 - Colônia do Sacramento, Uruguai.

Pensado enquanto estava sentado sobre sábias rochas que não ligavam a mínima para minha existência.