terça-feira, 14 de junho de 2011
Filhos de Éris
Escorrem-lhe da boca.
Caem doces, escorrendo pelo queixo da amante,
Que o rapaz muito gosta de lamber.
Passa, o percurso molhado da palavra,
Percorre as d'antes doces frases ditas
Que agora desfalecem tão amargas,
Escorrendo do pescoço ao peito nu.
No colo delicado que se inunda,
Maculado pela dor do juramento quebrado,
Vê-se a cobertura enegrecida
Da fome, da dor e do engano.
Os fluidos dos belos verbos seguem
Pela boca em que foram ditos esquecidos
Mas no ventre onde já escorre o discurso
A desordem se alastra e se enraíza.
As raízes penetram a pele fatigada
Instalam-se fecundas em solo úmido
Emaranhadas, infeccionando a casta derme
Arranham e provocam superfícies intocadas.
Da flor branca o combate se apodera
Como fosse um campo de batalha
Na derrota o puro receptáculo se rompe
Massacradas pétalas disputam o chão.
Voltam doces as palavras graves,
De engano e pólen mesclam-se em frases.
Quentes gotejam dos lábios generosos
Que bruscos abocanham o seio despido.
Desprotegido colo, marcado pela dor do verbo
Torna à inércia fria da perjura
Da bela morte a vívida lembrança, enfim,
Seu corpo vira território da discórdia.
sábado, 11 de junho de 2011
O Vermelho
O vermelho. Vermelho. Morango. Rosas. Fogo, pétalas, sangue. Ouço o canto dos pássaros que dividem espaços com a sinfonia dos veículos na rua da cidade. O bater do vento sobre as árvores; e ao farfalhar as folhas caem. As pétalas caem; vermelhas. O céu azul; agora coberto de cinza. O agonizante cinza que paira por vossas cabeças sedentas de porquês. Um dia houve paz? Concentração. Meditação. Ouço agora o coração batendo bobeando o sangue pro corpo inteiro. Tum tum tum.O sangue vermelho. Vermelho. Vozes de protestos. Banhos de sangue. Mas sei que por detrás das nuvens e sua escuridão reluz a grande bola de fogo na abóboda azul. Além das nuvens, além das tempestades, além da escuridão e toda premissa tempestiva de desesperança, há um céu azul! Azul. Agora sinto o cheiro. O cheiro provindo daquele jardim, das pétalas de milhares de flores que circundam as crianças. As crianças que inda correm sem pressa ou compromisso, desconhecendo tudo e nada. Nos sorrisos insisto a felicidade que muitas vezes se quer arrisco. Na boca agora o gosto, o paladar, o sabor do canto de um sonhador. E se disso tudo nada tiro; um amor, uma flor, o prazer de viver a vida - simples como ela é - não como o bicho “homem” quer; o prazer da água fresca a boca a escorrer pelos lábios e logo ao lado, ali, um colibri! que mesmo sem dentes com o bico me sorri! Lembra-me de tudo o quanto matamos, dia após dia, vidas perdidas, controladas, programadas e quando tirarmos nossas roupas, máscaras, personagens, essência não haverá senão o reflexo no espelho - usando o tato as pontas dos dedos se aproximam a tocar o espelho; imagem e reflexo se encontram; tocam-se, mas nada sentem como milhares de corações de pessoas robotizadas - do projeto humano, ainda em barro, ele grita “quero viver! Quero viver” e do outro lado do espelho o humano cansado chora e desmonta, balbucia, tenta gritar e não consegue e de sua boca jaz a desesperança de nossos tempos e grita pra si “quero morrer, quero morrer”, mas o som que sai morre no choro e a concentração me volta. Do alto morro volto a usar a visão. Agora abro olho. O pensamento se foi. Um pouco de paz chegou. Findo agora o esforço de não pensar e em jejum o fiz e disso tudo que corri, hoje terá um nome, de sentido que se esvai ao começar do amanhã e amanhã este nome outra coisa poder-se-á, mas hoje o nome disso é vermelho.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Houve uma pausa. Bebeu vinho. Continuou.
Mas saiba caro marujo, que nem todas as histórias são felizes. Como eu ia lhe dizendo aconteceu há quinze anos. Estávamos a bordo do meu primeiro navio, o Dream Hunter, bela embarcação, muito veloz, feita de madeira clara. Navegávamos por uma região do Caribe com o objetivo de chegarmos à Jamaica, em Kingston, mesmo porto que atracamos alguns dias atrás. Os motivos de nossa parada eram óbvios e você já os presenciou. Os marujos precisam, volta e meia, repor a ausência de certos caprichos que o mar não pode oferecer.
Durante parte de nossa viagem um albatroz seguiu o Dream Hunter, chegando até a pousar no convés do navio em muitas ocasiões. Durante o tempo em que o pássaro nos acompanhou a pescaria foi intensa. Os peixes praticamente saltavam para dentro do barco implorando para que os comecemos, entende garoto. Não precisávamos fazer nenhuma parada, havia comida em abundância, tanto peixe que até o pássaro era muito bem alimentado. Não tenho nada contra isso, não tenho nada contra animais, mas, algo no comportamento dos marujos começou a me enfurecer.
Começou espalhar-se um boato pela tripulação de que o tal pássaro era um presente de Deus, que trazia boa sorte, que era graças a ele que a pescaria estava indo tão bem, e falatórios desse tipo. Senti que deveria ajudar aqueles pobres homens crédulos a pararem com tais asneiras e resolvi dar um basta naquilo tudo.
“Certa manhã, no convés, ao ver o albatroz ídolo que estava repousando no deque saquei minha pistola e o atingi. Bang! Mas não foi um tiro letal, eu não queria matá-lo, ao menos não daquela forma. Você sabe como eu sou não é garoto?” Passou um tempo fumando antes de continuar. “- Algumas pessoas me consideram cruel, eu, pessoalmente, me considero uma pessoa divertida. Existe algo mais engraçado do que fazer alguém sofrer antes de morrer?! Eu acho hilário!” Jolly Roger começou a rir histericamente enquanto todos os meus músculos se enrijeceram de tal forma que achei que o coração fosse parar, mas ele não parou e a história seguiu...
“Então eu peguei o maldito pássaro que ainda não estava morto e o amarrei junto a estátua de uma sereia que ornamentava a proa, para que ele morresse de fome ou sede com o passar do tempo, mas na verdade morreria antes que isso graças ao ferimento da bala. A tripulação ficou enfurecida! Olhavam-me com um imenso ódio! Amaldiçoaram-me! Tentaram se rebelar e fazer um motim! Foi uma situação complicada. Tive que matar dois e aleijar um terceiro para que voltassem a si e tornassem a me respeitar. Sabe garoto, sou pequeno mas não queira entrar em uma luta de espadas comigo.” Falou isso dando tapinhas em minhas costas. Senti a espinha gelar.
domingo, 29 de maio de 2011
O capitão - parte II
Jolly Roger, nosso capitão. Era dele que Zurique estava falando. Agora o medo era tão alto que não pude evitar mijar nas calças. Zurique praguejou quando sentiu o cheiro mas logo depois começou a sorrir pois sabia do medo que passava por meus pensamentos; era o medo da morte.E sorriu com malícia mostrando seus impecáveis dentes perolados, pois eram de pérolas mesmo, já que os verdadeiros haviam lhe caído, isso acontece com freqüência com os homens do mar graças ao escorbuto. Roger, o capitão, era uma pessoa reservada, sujeito baixinho, barbudo, sem o olho direito, com alguns dentes de ouro, e um enorme anel ornamentado por uma grande pérola. Adorava fumar seu cachimbo nas noites de lua cheia na proa do navio e cantar para tripulação quando já estava meio alegre pela bebida. Parece uma pessoa agradável para conhecer e jogar conversa fora, no entanto ainda falta uma parte em sua descrição, a parte onde ele também é um sujeito extremamente cruel com suas vítimas mesmo que essas sejam os próprios marujos, que lhe dirigem uma palavra de mal grado. Também tinha um estranho gosto para torturas, adorava inventar e praticar novas formas de fazer - lá. Jolly Roger era temido por todos os cantos em que navegávamos. Arthur só estava a 6 messes no Demon fog e já vira o capitão matar três marujos, sabia que em uma conversa com o mesmo as chances de sair vivo do diálogo não eram tantas assim.
Zurique saiu, Roger entrou lentamente. Era manco de uma perna Sentou na mesma cadeira que antes estava o negro. Ascendeu seu cachimbo, deu umas baforadas e falou:
- Soube que você andou incomodando o velho Jack, marujo.
- Não senhor! Estava conversando com ele quando ele de repente me acertou! Aquele canalh...
- Calado! – a voz ecoou pela sala, ele havia se alterado. Depois voltou para a mesma sobriedade de sempre e continuou – Jack me contou o que aconteceu e sobre a conversa de vocês...
- Mas senhor, eu insist...
- Shhh! Pelos deuses, será que você não vai me deixar falar. Aqui, fume do meu cachimbo.
- Não fumo, não senhor.
- Olha garoto, vou te contar porque Jack, que está nessa comigo há anos, ficou tão irritado com você. Você não faz nem idéia?
- Não.
- Foi por causa de Ulisses, jovem tolo! Você disse para ele que Ulisses não existia! começou a gargalhar,e gargalhar muito. – É obvio que Jack ficou uma fera, ele adora Ulisses, é o seu herói! Diga – me rapaz, você realmente não acredita no Grande Ulisses?
- Não senhor. Ulisses é apenas um mito dos gregos, uma historinha qualquer para ensinar alguma baboseira para as crianças, e devo dizer que Jack já está ficando senil com sua idade.
- Jovem e atrevido, assim como eu um dia fui. Faz quanto tempo que você está abordo do meu navio, garoto?
- Fazem 6 messes, aproximadamente.
- Então é por isso! É por isso que não acredita em Ulisses de Ítaca! Você ainda não viveu tempo o suficiente no mar para acreditar em suas histórias, para acreditar nos sonhos e nas fantasias.
Jolly bateu palmas e alguns criados entraram trazendo uma refeição com batatas, peixes e vinho. Batatas e peixe tudo bem, nos também comíamos isso, mas vinho! Isso era coisa rara de se ver, digno do capitão. Tudo o que tínhamos era o forte e encorpado rum das ilhas caribenhas.
sábado, 28 de maio de 2011
Certo dia, Arthur (o mais jovem e belo da atual tripulação) me fez uma pergunta enquanto esfregávamos o convés:
- Hey, Jack. O que é para você ser um pirata?
- O que garoto?
- O que é ser um pirata, para você.
- Que diabos é isso?!
- É o que somos não é? Pilhamos, atacamos pequenos vilarejos, matamos pessoas, estupramos as mulheres (e os homens), levamos seus pertences como troféu, comemos e bebemos toda sua bebida. É isso que fazemos, é isso que somos; piratas!
- Tudo bem garoto, essa parte eu entendi, só não entendo de onde você tirou essa palavra pirata?
- É como todos nos chamam, pelas cidades e pequenas ilhas que aportamos. Vem do grego, se não me engano. Significa "assaltante", ou algo semelhante a isso. Para mim é disso que mais gosto, o medo que colocamos no coração das pessoas quando atracamos em seus portos, o pânico que se espalha pela cidade ao verem nossas bandeiras içadas vindo do horizonte...
- Cale-se garoto! Já não me basta a dor de cabeça do rum da noite passada ainda vem você me falando essas coisas. Olhe bem Arthur, os gregos não sabem de nada, são um bando de lunáticos, pelo menos os de hoje, diferente dos de antigamente, aqueles lá do tempo do Grande Ulisses, o primeiro de nós, marinheiros, aqueles sim eram dignos de honra, os de hoje não valem nada, mataria todos eles se pudesse.
- Jack, você sabe muito bem que Ulisses não existiu, não é mesmo?
***
Acordou de súbito. Teto estranho, cheiro estranho, era um cheiro bom, diferente do porão onde os marujos costumavam dormir. A cabeça estava doendo muito, a mão trêmula notou que ela estava enfaixada. Alguma coisa o havia acertado. Foi então que notou que Zurique, o banto, estava do seu lado. Assustou-se e também, não tinha como ser diferente, Zurique era horrível. Não bastava ser negro ainda tinha uma enorme queimadura no meio da face. Não gostava nem um pouco dos negros, foram eles que o obrigaram a seguir por essa vida de fora da lei já que sempre pegavam, ou melhor, roubavam os empregos dos verdadeiros ingleses – Arthur pensava enquanto Zurique o olhava.
- Você teve sorte, pequenino, se eu não tivesse interferido o velho Jack teria te acertado com o esfregão até você morrer. Você deve ter dito algo que o ofendeu muito, afinal, ele não costuma ser assim, não com a tripulação. O que você disse a ele, garotinho?
Zurique tinha uma voz rouca e olhos tão profundos quanto uma tempestade. Era temido por todos da tripulação, mas era braço direito de nosso capitão. Dizem às histórias que já tinha sido rei, se é que podemos dizer que havia reis na África, depois foi um escravo pois seu reino fora derrotado. Foi comprado por um francês, um homem de negócios, que estava apostando no ramo dos perfumes, o que era muito sensato de sua parte, minha mãe sempre me disse que Paris fede a merda e a peixe por todos os cantos. Zurique não suportou aquela vida. Matou seu amo, a família do mesmo, e logo mais estaria se alistando na tripulação do demon fog. Sem falar que corriam os boatos pela tripulação que ele era um mandingo, uma espécie de feiticeiro dos negros, não que eu acredite nessas coisas mas vai saber, sabe como eles são, povo traiçoeiro. Nota-se que era um sujeito assustador. De tanto medo acabei não respondendo a pergunta dele. Houve silêncio. Então ele disse.
sábado, 21 de maio de 2011
Orlando
Orlando - Virgínia Woolf.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Distância
domingo, 15 de maio de 2011
Erlebnis.
por onde começar e percorrer.
Era tudo tão intenso e tão forte
que a o desejo fez desaparecer a prudência.
E eu observava e
mapeava todas as curvas.
As suas, por certo.
No meio de toda aquela situação,
carregávamos signos de malícia.
Desdenhávamos os convencionalismos baratos,
fazíamos ruídos
e tudo era assim.
Vivendo numa moral quase pagã,
fazendo alusões à Baco,
as vespas alheias pouco importavam.
A tentativa de aprisionar o tempo
pela falta de prudência foi carnal,
onde marcas externas foram deixadas como
parte da memória.
Lembraremos - até, pelo menos, cicatrizarmos nossa aversão ao tempo!
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Sibilariando*
sem querer mais do que conversas superficiais
e todos notando que não me apaixonava...
Um apelido maternal que me deu um soco na cara
aqui sou eu, a Semsentimento que fala
e conta que dos tantos sentimentos, afinal eu senti um.)
Flutuo na calçada enquanto meu pensamento vai longe
e a memória traz pra mim coisas de um tempo que já não é
e isso dói um tanto, porque eu queria que fosse.
E a distância entre as paredes da cova é maior
e os leões agora parecem piores, porque são humanos, saudades e ausências.
Observo muito, e certos detalhes viram referências
e todas as referências, que graça, muitas vezes têm um único dono.
Sinto que o que sinto é estrondoso e forte e sincero demais,
preciso imensamente externar em algumas letras.
Sei que posso ser de outros e que não vejo problemas nisso
e sei também que quase todos veem problemas nisso.
Mas eu gostaria muito que tu soubesses que eu vejo corpo e alma separados
e eu espero que tu entendas que isso pode ser bom também,
porque te pertenço em um plano que vai muito além da matéria
e isso faz de ti rei de um mundo meu que é único
- enquanto podem existir príncipes e mendigos em mundos meus aos quais
eu não me entrego completamente
porque me sou só pra ti.
*"Assobiar" vem do latim sibilare
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Quotidien

quinta-feira, 7 de abril de 2011
Da Morte ao Redor
Provavelmente ele está caído no chão,
morto, lá embaixo.
E provavelmente minha gata
vai brincar um pouco com os restos dele.
E ela não é má por isso.
Eu tenho pensado muito
e a última semana passou acenando para mim como um borrão.
E eu me ocupei apenas
em sentir um enfado tremendo
em tudo que passava ao meu redor.
Não quero mais ter que me sentir assim.
E o mundo está todo do avesso,
e hoje eu queria apoiar uma revolução.
E parem de falar de overdoses e drogas,
eu já entendi que vocês são uma pane químico-biológica
e um desastre mental, não os culpo por isso,
mas por favor,
falem alguma coisa diferente e interessante.
Vocês não são artistas.
E eu acabo de ouvir um tiro
que parece ter sido dado do outro lado da rua
minha percepção pereceu, tensa, por um segundo
e meu coração se expandiu e logo se recolheu de aflição
porque a perspectiva de alguém morto a alguns metros de você é assustadora
E todas as reflexões puramente teóricas parecem bobas diante disso.
domingo, 3 de abril de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Homenagem aos pós-modernos de sobrenome Neves. Um trazendo o exílio no nome, e outro exilado na terra da Rainha.
sábado, 19 de março de 2011
Meus olhos seguem estes peões
que pouco a pouco seguem seu caminho
até alcançar a última fileira.
Este peão avança com tal desembaraço
que te faz pensar que chegando a esta fileira
começarão suas alegrias e obterá suas recompensas.
Encontra muitos obstáculos no caminho.
Os poderosos lançam suas armas contra ele.
Os castelos o acometem com suas torres;
dentro de seus campos
velozes cavaleiros pretendem com astúcia
impedir seu avanço,
e por todos os lados, desde o campo inimigo
a ameaça avança contra ele.
Mais sai incólume de todos os perigos
e alcança triunfante a última fileira.
Com que ares de vitória a alcança
no momento exato;
com que alegria avança para sua própria morte.
Porque ao chegar a esta fileira, o peão morrerá,
todos seus anseios eram para isto.
Cai no Hades do xadrez,
e de sua tumba ressucita
a rainha que nos salvará.
Konstantino Kavafis (1863-1933)
terça-feira, 8 de março de 2011
quem governa o teu andar, teu desejo, coração?
sábado, 5 de março de 2011
O velho da rua
São bem dispostos, fortes...
E pela vida “enlouquecidos”.
Veja você: para tudo há vontade...
Desde cedo, no amanhecer,
Ou dentro da noite, quando já é tarde.
Entretanto, o mistério da humanidade
Não se restringe a tal falada bravura!
E para além da bem disposta irmandade,
Há que se considerar a fatia taciturna.
Veja eu, fineza, um caso exemplar!
Desafortunado neste mundo...
Magro, cansado, quase moribundo.
Mesmo em pleno amanhecer, após o descansar.
Pertencente a malograda fatia,
Assim o digo, agora sem nostalgia!
Aquele tal que nasceu cansado,
Com um livro na mão e para o ‘resto’ desanimado.
E quanto a tu, se quiseres me encontrar...
Investido de tal ousadia!
E assim me procurardes,
Sem saber onde meu espectro se escondia!
Dou-lhe, caro conhecido, um conselho:
Caso em minha rua vier chamar, na lábia.
Cuidado quanto às características do mancebo!
Se por ventura o meu nome não saiba!
Pois assim como certo grau de excitação ante uma bela mulher nua,
É mais safo se perguntares pelo 'velho da rua'.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Pedalando no páramo
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O dente.
Levava uma vida medíocre: pela manhã, duas torradas e um longo gole de café. Meio atrapalhado, às pressas, saía para o trabalho. Caixeiro-viajante, sua profissão.
Gabava-se de suas conquistas. Já se deitara com algumas mulheres - e acreditava que havia pouca variação nesse gênero. Um olhar despretensioso, uma abordagem engraçada. Trajava, ao cortejá-las, uma máscara de intelectual. Caía-lhe bem. E isso ele também admitiu.
Pela tarde, a labuta. Vendia relógios cucos. Cada dia estava em um local diferente. Em qualquer parte de sua viagem, sempre parava e apreciava, pelo menos, um longo gole de café. Trazia-lhe um pouco mais de ânimo.
Elas, as cortejadas, diziam adorar homens diferentes, mas em nada mudavam. Nem faziam questão, talvez. E ele - pacientemente - sabia que reclamariam: todos os homens são iguais. Mas ele não, ele era diferente, diziam elas ou ele mesmo se fazia crer.
Acabara de ler Gogol – O nariz. Soltou uma leve risada e admitiu que a literatura russa era para poucos. Ao sorrir, notara que lhe faltava um dente. Não, não era um dente, e sim o dente. Que situação!
Resignava-se ao ouvi-las reclamarem. Os fins justificam os meios; leu, provavelmente, numa edição reader`s digest. E o fim, para ele, era a conquista.
Crendo ser meio absurdo a perda do dente – lera que o major Kovaliov havia perdido o nariz, mas não, o dente não! Como, sendo um caixeiro viajante, sujeito de admiráveis conquistas, iria lidar com toda essa situação? O que pensariam as moçoilas de tudo isso?
Pela noite, postava-se defronte a Júlio Cortázar, Mario Vargas Llosa ou Émile Zola. Entrecortava as páginas. Lia-os em pormenores e simultaneamente como se fossem os últimos escritos – portanto valiosíssimos – da humanidade.
Levava uma vida medíocre. Mas agora lhe faltava o dente. Gabava-se de suas conquistas. Mas agora lhe faltava o dente. Pela manhã, pela tarde ou pela noite. Ainda lhe faltava o dente. Nada mais importaria em sua vida. Faltaria o dente.
Lembrou-se: há situações que beiram o absurdo. Onde estaria o dente? No mesmo lugar de sempre: em sua boca, de onde nunca saiu. Os detalhes..
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
O fim
Algum tempo depois do primeiro passo dado, apareceu um primeiro objeto à beira da estrada, sobre a grama. Era uma daquelas caixas de música que se põe perto dos berços das crianças. A menina, que supostamente devia ter em si a curiosidade de toda a criança, não fez mais que olhar o objeto, sem sequer parar de caminhar. Aflige-lhe apenas uma sensação quando olha o objeto mais uma vez, algo como estranhar o óbvio. Ela segue.
O objeto seguinte é uma boneca de pano. Esta carrega consigo o “ir pra cama” das infâncias felizes do mundo inteiro, os pais que vêm dar um beijo de boa noite e as próprias crianças, que fazem de conta que já dormem até que seja irremediavelmente necessário confessarem o contrário para pedir que suas mães deixem as portas entreabertas, por terem medo da escuridão (e do que há nela, ou, talvez, exatamente do vazio que é). Algumas deixarão de ter; não é o caso.
Mais alguns desses signos passam conforme ela caminha. Surge um garoto, vindo do próprio ar, que atravessa a estrada acenando pra alguém que não está lá, e gritando: “toca pra mim, toca pra mim!”. O menino some como surgiu, mas o aperto que trouxe ao coração de nossa pequena andarilha fica. Um passo de insônia — será que ele gosta de mim? —, um passo de pura felicidade — ele gosta! Mas isso é bobagem, ela quer mesmo é ver ao que leva esse caminho.
Outra caixinha de música. Nessa o som é alto, agitado. Cabem luzes e pessoas dançando dentro. Cabem bocas, mas não chegam a caber nomes. A menina cresceu de uns passos pra cá, mas ela quer conhecer sua a cidade de esmeraldas e portanto segue seu caminho.
Tanto quanto surgiu foi admirado à distancia. A menina se fez mulher sem sair da estrada. Tudo quanto surgiu foi deixado para trás. Tudo, menos a outra menina, que apareceu, como tudo o mais, também às margens da estrada amarela. Essa outra era parecida com a primeira, a do começo do dia. Aquela que já era mulher estranhou, suspeitou, sorriu, mas seguiu seu caminho. Alguns passos a diante, a mulher já não pensava mais na pequena quando esta veio correndo segurar-lhe a mão e seguir com ela por essa trilha que custava a terminar. Eram mãe e filha, evidente que sim.
Quando o sol primeiramente tocou o horizonte oposto ao do qual surgira, um ponto escuro tornou-se visível ao longe. Medo, excitação, ansiedade e alegria tomaram os dois corações, mas eu já havia dito que este não é um conto de fadas. O negrume tomou a forma de um caixão que, diferentemente do resto, se impunha no meio do caminho. “Bom, estranho que esteja na estrada, quando tudo o mais sempre apareceu às margens, mas basta que o contornemos”, pensou a que então já era velha.
— Não, mãe — disse a filha, retendo a outra pela mão.
Lágrimas vieram aos olhos da mãe, que em algum lugar sabia: a tentativa seria frustrada.
— Você fica aqui, mãe, e descansa. Eu vou achar o fim, deixa que eu acho.
A mulher percebeu então, que por querer saber do fim, havia deixado muito para traz e o quanto a filha haveria de deixar também, se insistisse naquela mesma busca. Quis gritar à menina, que já se afastava, não cometesse, ela, o mesmo erro, não havia mago algum lá adiante, e trouxesse para a sua estrada o que lhe fosse aparecendo às margens desta. Mas a tristeza fez muda a mãe, e a ambição, surda a filha. Agora, uma é apenas parte da estrada que a outra segue, e assim há de ser até o fim. Um fim que não existe.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Um bocado de tipo de gente:
Da moça rica que se irritava em prantos,
Ao orgulhoso que se fez de ‘servente’;
Um fazendeiro que se pensava ‘o regente’,
Filho de magnata: a todo custo ‘expoente’,
Havia também garotões, enroscados em bravatas,
E até bons estudantes, com suas falas memorizadas.
E agora eu, solitário assaz,
Lanço ao mundo um olhar menos voraz!
Vejo estes companheiros todos, ... e me fala a consciência “não minta”!
Não o farei, pois que digo: agora os vejo de uma forma distinta!
E se antes cobicei deles todos uma distância inaudita,
Agora pois... vejam bem: sinto, quiçá, um pouco de nostalgia.
18/02
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Dos sonhos [Nº 02]
Era um sonho estranho: eu era feliz,
E com tudo ao meu redor: sintonia;
Não parecia ter feito tudo o que fiz.
Noutra vez, já não era a mesma sensação,
Despertava, levantava meu peso do chão...
Abria meus olhos: que dia ensolarado!
Carregava uma dor e sonhava acordado.
16/02.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
O mal eminente
O inimigo mais uma vez se camufla na pele de cordeiro.
Dizem aceitar todas as religiões, mas o deus a quem estão contemplando era o chefe da orquestra de seu Senhor, expulso pelo mesmo após tamanha traição. Antes convivíamos apenas com a hipocrisia das igrejas, falsas moradias de um certo todo poderoso, mas ao que parece sua edificação se faz no próprio humano que continua a refletir sobre a frase "conhece-te a ti mesmo". Hoje as igrejas competem com outra instituição conhecida como "lojas"...hum..lojas..o que será que vendem por lá?
- Talvez a alma! Oh escritora.
...talvez. De certo é que suas edificações aumentam dia a dia, bem como, seu nefasto poder e controle. E tal qual o olho de Sauron, possuem eles um olho que tudo vê. Controlam governos em todo canto do mundo. Contemplam o carneiro de ouro ao invés da palavra. Corrompem o mundo com força desde 1789. De uma América ao norte parecem contemplar toda a sua sorte - a desgraça do mundo. Falam em democracia e atuam em segredo. Conspiram. Há uma guerra silenciosa. Mais de 36 milhões de caixões contruídos numa ilha da Europa e cada caixão com espaço para três mortos. O inimigo está se revelando, até pretexto de fim do mundo em 2012 já criaram como a legitimar uma catástrofe eminente orquestrada na surdina. Seus símbolos estão por toda a parte, de pirâmides a obeliscos. Ritos, sacrifícios, cusparadas na cruz de cristo. Há um mal eminente.
Assim veio me dizer um sábio da montanha. O que sei é que há algo muito estranho acontecendo. A roda agora gira como dantes nunca vira. Lanço a este olho que tudo vê olhares receosos. Que a resistência se prepare - concluía o velho. As peças estão se movendo.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Névoa noturna
por entre ruelas e becos,
de uma pequena colônia,
praiana: nas redes da insônia.
Não me cansa este eterno caminhar,
Tudo gira, tudo gira: a girar;
Eis que aos tropeços me flagro a mirar,
uma névoa noturna à beira-mar.
E de repente me perco a pensar,
Agora é meu corpo que queda ao girar,
E cai inteiro, esticado, adormecido a marcar
Na areia...
Que então é coberta pela água do mar.
Fpolis, 15 de fev. de 2011.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Versos para uma (breve) despedida
Até para os que já nascem velhos;
Os jovens-idosos.
É luz que, sem ser iluminado ainda, ilumina;
Luz que entusiasma os corpos ao redor. Que anima, que inspira.
_Vai: leva sua luz, se ilumine.
E leve consigo o nosso abraço fraterno.
Floripa, 15 de fev. de 2011.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Um tempo para o tempo: a História vai passar.
Sentou-se. Ela sentou-se.
A História sentou-se ao meu lado e pediu um copo.
Daquele mesmo líquido que eu bebia: feito de grãos de cevada.
E pensei...
Há quem sofra a História.
Há quem construa a História.
Há quem se sinta excluído por Ela.
Depois de alguns muitos goles ela admitiu:
Não tenho e nunca tive pretensão de ser ciência - por que seria?
Chorou e, aos prantos, continuou:
Confundem-me com a memória e dizem que sou arrogante.
Agora proclamam meu fim.
Alguns até dizem, continuou Ela, que já cheguei ao meu fim.
Outros questionam minha existência: para que ou para quem eu existo?
É coisa do Tempo, esse sujeito mal construído.
Culpem-no!
A História calou-se.
Depois de alguns goles calou-se.
Nunca mais falaria - agora ela teria, mais do nunca, seus (confusos?) intérpretes.
Palhoça, 27 de janeiro.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O poder do sacolé
TOA
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
E agora, Matilde?
A chuva caiu;
A casa caiu.
O morro desceu
O Décio morreu.
Morreu o seu filho
Morreu seu marido
O bosque, já não é florido;
Já não há mais bosque
Nem mais nos quadrinhos
Pois livros não tem.
O sono não vem.
Se não há mais cama
Onde haverá calma?
Somente um vazio na alma!
E nada mais há de haver.
E agora, Matilde?
Você que está velha
Você que é humilde;
E agora, Matilde?
Quer acordar,
Não quer nem lembrar;
O que você quer?
Matilde, você nem mais é mulher!
Faz parte de um número.
Você é um numero.
Você é lamento.
É toda sofrimento
É a cara da enxurrada,
Que enxurrou o firmamento.
Texto: Gabriel Thiesen - um amigo talentoso.
Haurindo sonhos
Iulla Portillo - http://portilloiulla.blogspot.com
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Rainha Hematófaga
Sangue, imagens, aromas.
Almas.
A velha analogia do véu,
O velho fato da morte.
A velha.
Mas ela não morre, a velha.
Ela só continua, vagando,
Gritando seus fantasmas por aí.
Seu cristo surrado
Sua crença batida
Sua vida encarquilhada.
Encarquilhada ela própria,
Caquética ela.
Forte, ainda que velha.
Mesmo viva, já morta.
Mesmo morta ainda absorve:
forças, almas, felicidade.

