sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um conto sobre lendas

Madrugada corria solta, embora silenciosa, enquanto andávamos por uma rua paralela à praia. Os dois amigos, bêbados, já assaltando suas próprias geladeiras na falta de bares abertos naquele bairro miúdo, assim, de um cosmopolitismo provincial – que se infla nos verões da vida -, atrás de alguma cerveja gelada pra amaciar a conversa. E um assunto secundário que acabou se tornando um clássico da verborragia noturna, gloriosamente relembrado na tarde de sol seguinte quando a filosofia fraterna se aprofundava, se estreitava, de frente para o mar. Pois. G. e H. são amigos velhos. Nem tanto. 10 anos? Dá pra cravar. Estão flertando com os 30. Quer dizer, um já está entrando neste cômodo, o outro, bem... este gajo ainda olha assustado, pra este cômodo nada cômodo da casa dos 30, de certa forma. E, voltando à rua silenciosa, daquela noite, que de tão noite já se diz que era madrugada, uma madrugada paralela à praia, se é que posso assim dizer. Bem, então. G. do alto de todo um sistema de argumentos desenvolvidos na medida em que seus passos evoluem, assimétricos, pela mesma rua, diz, essa coisa de pós-modernidade é uma loucura. Hoje se vive tudo no agora..., vivemos, meu caro, sob a égide do presentismo, as pessoas querem o prazer imediato e ponto, não importa lá muito o que vem depois. Houve um tempo que se desejava viver e ter uma continuidade após a vida, deixar um nome, deixar sua marca no mundo para que quando a pessoa morresse, alguém, enfim, as pessoas lembrassem dela. Como a construção de um ícone, certos homens desejavam viver como lenda, na posteridade. Dito isso, toma mais um gole quando H., que vinha concordando com a cabeça, dispara: é cara... as pessoas hoje não se preocupam muito com isso. Mal termina e G. continuando seu pensamento, diz, sério, cara... perguntei pra minha mãe o que ela pensa sobre isso, se quando ela morresse ela pensa se alguém vai lembrar dela, das coisas que ela fez... H. interroga, rapidamente, o que ela disse? Ela não disse nada, os dois riem. De repente silêncio sobre o silêncio da rua e H. dispara, cara... eu acho que meio que já sou uma lenda. E, num rompante sereno, porém mais rápido que aqueles disparos em duelo de faroeste norteamericano, G. olha pro alto dizendo, lenda? H. se vc morresse amanhã ninguém ia lembrar de vc, e antes que H. pudesse pensar, emendou, nem seus pais! H. esboçou a tela em seus pensamentos, o dia seguinte, falecido, e em sua casa a mesma rotina, inabalada, como se não tivesse ocorrido nada, seu pai assistindo futebol, sua mãe lendo alguma coisa ou escrevendo, enfim, como se ele nunca tivesse existido. Alguns segundos em silêncio sobre silêncio que já esteve sobre silêncio e H. desata numa risada fora de controle que logo atravessa G., que não sabendo bem que era especialista em demolir lendas, se dava conta da tragédia dita, e já soltava lá suas risadas também. Não sei exatamente quantos segundos duraram aquela risadas, mas, na tarde seguinte gerou riso de ambos novamente à lembrança do ocorrido.

E H. sabe, embora não admita, que andou rindo sozinho pela casa, depois que voltou da rua. Clássico da verborragia noturna? Maneira de dizer. Não deve durar mais que dois dias, possivelmente, este lembrança. Provavelmente H. deve julgar o contrário e G. ao ler estas linhas, já o deve ter esquecido. Ou não.

Um comentário:

Quem disse que na vida da gente não tem poesia? disse...

Que coisa boa! Nosso Poeta do Exílio está de volta! Estava fazendo falta!