quinta-feira, 16 de junho de 2011

Experiência dos anos

Desde pequeno fui constantemente atormentado pelo fato de meus pais serem estranhos. Sofria muito na escola com a zombaria dos colegas mas não podia fazer nada afinal ninguém escolhe os pais que tem e muito menos pede para nascer. Tudo bem que eles realmente não eram as pessoas mais convencionais do mundo mas eu os amava, em especial minha mãe, mas também admirava muito meu pai que muito me ensinou. Agora que minha juventude já se foi a muito tempo os dois estão mortos e eu fiquei com a propriedade da família, a casa amarela, pelo menos era assim que todos os vizinhos a chamavam por mais que para mim sempre tenha sido simplesmente, casa.

Gostei muito de ter passado minha infância naquela casa. Havia vários cômodos e diversas áreas para uma criança com muita imaginação se aventurar e devo dizer que eu tinha sim muita imaginação. Tive até vários amigos imaginários, tudo bem que parte disso foi decorrente dos costumes peculiares de meus pais que acabavam afastando os colegas de mim. Contudo em minha juventude eu os considerava como pais normais. Hoje, com a experiência dos anos em minhas costas, sei que realmente eles eram um pouco excêntricos. Era algo nas roupas que vestiam, na maneira como andavam e comiam, nos diversos amigos e amigas que freqüentavam a casa amarela (um mais estranho que o outro) e nas festas que costumavam promover. Todas elas começavam tarde da noite, o que perturbava os vizinhos. Eram cheio de algazarras, estranhos gemidos, muita bebida e uma estranha fumaça que preenchia a parte inferior da casa, a qual eu era estritamente proibido de freqüentar enquanto essas festas aconteciam. Eu tinha que ficar trancafiado no quarto dos meus pais, lá no alto da casa, como uma princesa à espera de seu cavaleiro, mas no meu caso um jovem garoto solitário á espera de seus pais, muito embriagados. Hoje, com a experiência dos anos em minhas costas, eu sei que na verdade os dois eram devassos, alcoólatras e provavelmente usavam ópio, ou algo do gênero, contudo possuíam uma grande moralidade para comigo. Não queriam que eu visse ou participasse daquelas coisas. Como eu disse antes eles eram muito bons, amigáveis e atenciosos, tirando os momentos em que estavam festando. Pagaram meus estudos na Bélgica e França, me sustentaram por anos a fio seu se queixar um único momento até que casei com Jéssica, e com ela fui morar. Foi assim que sai da casa amarela.

Mamãe agora está morta e eu voltei para casa que não visitava fazia uns 15 anos. Vim só; afinal essa casa não representa nada para minha esposa, ela nunca chegou a conhecer meus pais. Eu nunca quis que ela conhecesse. A repressão que sofri por toda minha vida realmente teve efeito. Amava meus pais e ao mesmo tempo os desprezava por serem culpados por minha solidão. Mas agora, mamãe está morta e cá estou eu, na casa amarela.

Ando pelos quartos, pela sala, cozinha. Memórias estranhas começam a surgir, tão estranhas que até parecem não serem minhas, parecem que foram vividas por outra pessoa em algum outro tempo muito antigo. Devaneio e tiro o pó dos móveis. Lembro de uma vez em que tive um pesadelo no qual havia uma estranha seita de pessoas encapuzadas que torturavam uns aos outros até a própria morte. Foi horrível. Os gritos de dor misturados ao prazer eram horríveis. Acordei muito assustado, chorando, e desci as escadas. Desobedecendo completamente as regras entrei na “sala de festas” de meus pais e corri para os braços de minha mãe. Ela me consolou como a maior parte das mães faria. Disse que tinha sido só um pesadelo e me levou de volta ao quarto de cima esperando calmamente que eu dormisse até ela poder voltar para suas orgias semanais.

Acho que foi a primeira vez em minha vida que entrei no quarto de festas durante uma festa. O mais estranho é que não consigo me lembrar o que estava acontecendo ali. Só me lembro de minha mãe, as outras pessoas parecem sombras em minha memória. Hoje, com a experiência dos anos em minhas costas, cá estou na Inglaterra, em pé na sala de festa, muitos anos depois do meu pesadelo. É uma sala estranha, não há como descrever-la direto. Há móveis, mas não como os que estamos acostumados a ver. Definitivamente não sei para o que eles servem e me assusta até imaginar. Ela também é repleta de espelhos para todas as direções e paredes vermelhas, muito convenientes para os “eventos”, eu suponho. Muitas velas, sujeira e tempo completavam a decoração do lugar. Lá no canto, na outra extremidade, havia a porta verde. Estremeci quando a vi de novo, pois já nem lembrava que ela existia.

Era uma porta verde, grande, com inscrições em tinta dourada comunicando algo que eu não conseguia ler. Era também o local mais proibido da casa. Tão proibido que no dia em que eu toquei na porta minha mãe pegou minha mão e colocou em uma panela com água fervente. Tenho as cicatrizes até hoje. Ela me falou que a dor que eu estava sentindo não era nada comparado ao que iria acontecer caso eu cruzasse a porta verde. Mas agora, mamãe está morta e eu tenho a experiência dos anos ao meu favor.

Cruzo a porta, ela é pesada e vagarosa, como o tempo. Entro na sala. Está completamente escura e exala um cheiro muito ruim. A porta se fecha atrás de mim. Tento abri-la, mas é inútil, me parece que só abre por fora. Bato na porta e grito com todas as minhas forças, clamo por ajuda, mas é inútil, ninguém passa perto da casa amarela a um bom tempo. Tento manter a calma e pensar no que fazer, mas é então que percebo o que está acontecendo. Percebo que há alguém na sala, além de mim. Está respirando, posso ouvi-lo respirar. Reúno toda a coragem que me resta e olho para trás. Não vejo nada. Seria minha imaginação? Bom seria se fosse, mas percebo que não, a respiração está vindo de cima. Eu olho e congelo. Os seres humanos ainda não inventaram palavras em nenhuma gramática para descrever a criatura que estava no teto a me observar, por isso mesmo, não vou descrevê-la. Só posso dizer que era esverdeada e que o seu pior pesadelo de infância não chega nem aos pés daquilo. Foi quando, no extremo terror, tudo fez sentido. Meus pais não eram simplesmente estranhos ou excêntricos, eles faziam coisas que a população abomina, mexiam com coisas que a ciência não consegue explicar, liam livros apócrifos, usavam capuzes e mantos em suas festas. Sim, agora me lembro! As sombras de minha memória eram pessoas com longos mantos negros. Os gritos de meu pesadelos não eram apenas sonhos deveriam ser vítimas. Hoje, com a experiência de meus anos sei que meus pais não estavam fazendo uma festa era mais uma espécie de ritual, sabe-se lá para que, talvez para aquilo que estava no teto me observando e respirando.

Não sei explicar o porquê, mas depois que o terror foi diminuindo tirei minha roupa por inteiro e me deitei ao chão em posição fetal - me pareceu o mais correto a se fazer - e esperei pela morte, ou algo parecido com isso, que já me parecia inevitável. Estou na casa amarela, mamãe está morta e logo estarei também.

Em homenagem à E. Allan Poe, H. P. Lovecraft e J. L. Borges, além, é claro, à todos aqueles que acreditam que um simples instante de puro terror (ou prazer) ensina muito mais que anos de experiência.

3 comentários:

Tainah Lunge disse...

Incrível!!!

Tainah Lunge disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tyche Fortuna disse...

Genial uma vez mais querido Posseiro que com tão refino no trato das palavras de um vôo ao grito que faz as espinhas congelar também nos fizera a porta verde adentrar; e talvez - quem saiba - a morte esperar?