domingo, 7 de junho de 2009

até amanhã, sou ana


no sé por donde empezar: ou talvez o inverso - são vários os começos. soy ana embriagada, miragem em taça de vinho. meu nome eu que escolhi. admito ter rodopiado um tanto entre maria e ana. descartei maria por ser muito maternal, apesar de ana ser o nome de minha mãe. pressinto que as coisas fluem. misturo os tempos; circulo com vestidos bufantes pelas gafieiras e de sandália rasteira pelos salões de baile. guardo uma tristeza no rosto, tristeza de uns vinte anos ou pouco mais. para mim o tempo flui sem dor; sei que um dia tudo estará terminado. divirto-me às custas dos desesperados. vivem sua lucidez histérica comendo uns aos outros. guardo minha histeria para os amores. pratico o sono à tarde para desenrolar as juntas. à noite tenho vontade de começar a vida outra vez, mas levando muito da anterior. minhas manhãs são poucas: tomei por hábito apenas acordar para o almoço; ao menos terei mais sonhos para contar aos netos. sou musa e criadora. habitei séculos passados e dei vivas à fotografia, afinal, nunca fui boa com pinturas. gosto é de posar para amigos talentosos. como vim parar aqui? o poeta caiu em meu canto. não teve a sorte de ulisses em ficar amarrado ao mastro do barco e nem de seus marinheiros, ensurdecidos por pedaços de cera. visitei o exílio e mordi seus lábios. nem o mais amargo café carrega seu gosto da minha boca. embriagada, gosto de escrever minúcias em minúsculas e destruir corações.


eu por hopper - automat - 1927

3 comentários:

Poeta do Exílio disse...

Embriagada de sonhos, eis ana noturna: feliz daqueles que da noite fazem companheira, pois é território repleto de inspirações. Noturna e fotógrafa, é a ana sonhadora. Cujos sonhos ofuscam olhares alheios, pois estes sonhos são colhidos à noite. São sonhos fecundos, bonitos e felizes. Se posa pra fotos, brilha como o sol, pois é lua nos sonhos e sol na realidade.

poseiro das palavras disse...

Que texto belo!
Fantástico!
Nem mesmo a mais famosa das Anas, aquela que veio lá de Amsterdã, poderia ser personagem tão interessante, amarga e cativante como essa! O espírito de embriaguez que antecede uma terrível resaca!

Versículo de Souza disse...

Que luz espontânea percebo brotar de suas palavras. Se te conhecesse diria que têm tudo a ver, magistralmente, com a sua realidade, numa construção de charadas que deixaria ainda mais boquiaberto o Curinga, mestre nietzschiano das jogadas. Diria inclusive que a Daniela Cicarelli rasgaria sua já privilegiada boca de cabide, apesar de não saber se ela te entenderia e apesar, também, da imensa ofensa em elegê-la num comentário a respeito da embriaguez de voz nítida.