segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Janela

Era espantoso perceber o quanto aquele homem envelheceu! Cada ano que passava, ele envelhecia dois. Ao que tudo indicava, ele tinha, neste momento, uns 120 anos, praticamente o dobro da minha idade. E eu o conheço há um bom tempo, desde que me reconheço como gente - aos 6 anos, talvez.

Sempre morei no centro de Florianópolis, Rua Vidal Ramos. O apartamento tinha dois quartos e eu, desde então, morava com a mamãe e o papai. Depois de anos, os dois se mudaram e me deixaram aquele canto que sempre morei e que escondia os meus segredos: a primeira namorada (que sempre ficava às escondidas da mamãe), a admirável vizinha Beatriz...

Ali, naquele apartamento, eu também conheci aquele homem, aquele espantoso homem que agora eu o vejo velho. Disse ''agora'', porque eu o já conheço de outros carnavais, quando novo era... Éramos, no início, de certa forma, fisicamente parecidos, apesar de eu não ser tão fisionomista. Divergíamos, porém, nas atitudes. E o que mais soava estranho é que somente eu podia vê-lo pela janela do meu abafado quarto.

Através dela, quando 11 anos tinha, vi aquele estranho beijar uma linda garota que me pareceu ser mais velha do que ele. Aliás, as balzaquianas eram, acima de tudo, sua preferência. Aos 16, vi, ao que tive a impressão, sua primeira noitada - se é que você que me escuta, lê ou sente entedeu. Pelos sussurros, pensei, de curta duração; não duraram mais que 4 minutos.

Daquele momento em diante este mesmo ritual, de quando em quando, se repetia: Ela entrava. Dizer ''ela'' é um eufemismo. Elas, uma a cada vez e em dias diferentes, entravam. Abria um cabernet sauvignon argentino, chileno ou sul-africano. Dependia muito do seu humor. A música, também como parte integrante do ritual, eu já sabia: Miles Davis. A luz era dum amarelo-queimado-romântico-francês (disse francês porque miticamente acreditam que os franceses são, sem exceção, românticos). Na sequência, ela despia-se. O fato se consumava. Ela despedia-se. Outro dia, quem sabe, ela voltaria. Particularmente eu não tinha mais esperença de revê-la com aquele instável homem.

Quantas e quantas vezes eu o via - isso apenas através da minha janela - só, concentrado, lendo e relendo a obra que a jovem mais delicada que eu notei ali adentrar lhe emprestara [O amante, Marguerite Duras] e que com tanto esmero ele, aquele misterioso homem, a tratou, quase como uma rosa. Com ela a música mudava. Cartola era o tema. E o silêncio era sagrado. Que bobagem! As rosas não falam...

Por vezes julguei que aquele homem era estranho. Indiferente, melhor dizendo. Noutros tempos me fiz acreditar que ele me era familiar. Agora seu físico se diferia - e muito! - do meu. A familiaridade se devia pelos gestos e atitudes. Cheguei (inclusive) a pensar que aquele homem bem poderia ser meu amigo. Devaneio meu, sem dúvida alguma.

Aquilo que eu gostaria de ter experimentado, ele já experimentara. Aos 18, notei que ele, por ser mais velho, tornara-se intelectual: Lia Marx e, naturalmente, concordava com o anarquismo de Bakunin. Enquanto eu tinha 18, ele aparentava ter trinta e poucos anos. E eu o continuava observando pela minúscula e decadente janela do meu quarto.

Ricardito, disse minha mulher na noite do meu sexagésimo aniversário bem no instante em que eu percebia aquele homem envelhecer, o que tanto você olha nesse espelho? És, por acaso, o narciso do século XXI?

Ali, descobri que o espantoso homem que tanto admirei envelhecera e que meu quarto, do contrário daquilo que tanto imaginei, não tinha sequer uma janela. Envelheci sem me perceber e fui ser sem ser percebido.

4 comentários:

Tyche Fortuna disse...

Genial!²

hallan disse...

As engrenagens se ajustam de acordo com seus movimentos naturais, um dente quebra.. a rotina muda.. engrenagens vem e vão, e o movimento permanece, mesmo estagnado, o movimento acontece! Parabéns pelas sábias palavras, Jovem Jedi! Desejo que suas engrenagens se movimentem cada vez mais, mesmo sem dentes!

Abs

Poeta do Exílio disse...

Gostei das linhas. Notei um alter ego em plena puberdade.
rs...

Ana T. disse...

"O Amante" é um ótimo livro... Amo o estilo dele e tal.
Enfim, gostei desse texto, ele fluiu bem (: