segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sobre a inocência das flores

Não foram poucas as noites
Em que eu tentei escrever.
Não me faltava tinta, não me faltava disposição:
Nas manhãs seguintes, acordava com olhos fundos e lentamente,
Notava papéis brancos sobre a mesa.
Assim, brancos. Sem palavra. Sem uma letra sequer.
Por muito tempo não consegui transpor,
Aqueles pensamentos que em minha mente reverberavam.
E os papéis, brancos amanheciam.
Esse mal que me acometia, cujos contornos custei a perceber,
Era uma espécie de opressão velada imposta pelo meu jardim. Aquelas plantas bonitas que eu reguei com água fresca, cioso por vê-las crescer. Ah, sim! Não pouparei o jardim dos meus carinhos vãos, pois que havia ali rosas espinhosas que se rebelaram e se puseram a me oprimir, quando tudo o que eu precisava era vê-las florescer.
Não quero cuspir palavras de auto-enaltecimento. Não quero mais ter jardins. Desejo vê-los, sem ter posse. Pois que meus eles não precisam ser para que eu possa procurar a beleza que há em cada um deles. Eles não precisam de donos. Nada precisa.
E no fim de tudo, aquele algoz que me oprimia e me fazia fugir esteve sempre aqui, muito próximo a mim. Levava meu nome e tinha em seu rosto os meus contornos e meus cabelos brancos. E me fez pensar por muito tempo que a culpa era das flores...

Florianópolis, dezembro de 2010.

Um comentário:

Zé do Trilho disse...

Belo texto, nobre! Belas reflexões para o início de um novo ano. Sejamos felizes!