terça-feira, 28 de julho de 2009

Ah, como é belo o mar...
Imensidão azul, horizonte pleno, grandeza celestial. Lembro que contemplei extasiado aquela primeira vista. Naquele momento as lembranças das palavras de Padre Janeiro emergiram em minha mente, não entendia o sentido de determinadas explicações de meu preceptor. Esta, compreendi claramente no determinado instante em que enxerguei aquele oceano: "Nós somos a essência divina, o micro que se unirá ao macro. Como por exemplo o mar, se retirarmos uma gota dele, naquela ínfima parte estará contido todas as propriedades existentes no mar, contudo, não é o mar."
Impossível compreender tal exemplo sem conhecer aquela infinitude. Não pude conter a emoção com a nova compreensão, a saudade de Janeiro já era sentimento constante. Dantes de continuar, preciso proclamar um ato de justiça com meu padre, ainda não descrevi a meus possíveis leitores (se é que terei algum) algumas características marcantes daquele grande ser. Padre Janeiro era um homem de no máximo 1,70m de altura, brasileiro genuíno, era impossível identificar sua procedência, descendência. Tinha pele morena, cabelos lisos escorridos e olhos azuis. Era cabra forte, resistente, o vi levantar praticamente sozinho mais de uma igreja. Ser incansável, depois de desgastante dia de trabalho braçal e espiritual, encontrava tempo para se ilustrar e ainda me educar. Suas melhores característica eram a alegria de estar vivo, servir e aprender. Não lembro de vê-lo brabo, se ficava, com certeza escondia. Possível ser um sofredor que não demonstrava, caso fosse esse o caso, ele seria mestre nisso. Seu sorriso é algo que nunca saiu de minha memória. Hoje, muitos anos se passaram, porém, as vezes quando tento ouvir o som do silêncio, este é interrompido por aquele sorriso sincero de Padre Janeiro. Já de muito refleti sobre este ato do criador, o sorriso. Deus já nos criou passíveis de sermos nossos próprios terapeutas. Nos tempos contemporâneos percebo multidões que buscam consolo em alternativas áreas de terapia. Naquela época, quando esta palavra poderia soar como palavrão, Padre Janeiro, no primor de sua inteligência, percebera que o sorriso é a terapia celeste. Um dom nos concedido, aproveitado por aqueles que o percebem e valorizam. Talvez este foi o grande legado deixado por meu preceptor em minha formação, a alegria de viver!

Depois de peregrinar com o regimento por todas as bandas do Ceará, chegamos a Fortaleza, foi quando pude conhecer o mar. De lá pegamos barco para Belem. A capital do Pará era a porta de entrada da Amazônia, ponto de encontro de milhares de nordestinos que buscavam prosperidade na construção da ferrovia. No porto de Belem, olhei assustado para aquela multidão, famílias inteiras, muitos jovens, indivíduos que deixaram mulheres e filhos a fim de encontrar a salvação de suas famílias. O encanto começou a se quebrar neste momento, pela primeira vez senti medo da decisão que havia tomado. Será que todas aquelas promessas seriam cumpridas, e se não obtivéssemos êxito, conseguiríamos retornar as nossas antigas vidas. Tinha até a escolha de fugir e tentar alguns biscates até conseguir retornar a vida eclesiástica no Ceará ao lado de Padre Janeiro. Porém, o orgulho da juventude preponderou em minha decisão, já havia chegado até ali, agora não teria mais volta. Uma palavra de padre Janeiro não tive condição de compreender naqueles momentos, as vezes sentia-me agoniado naquela pequenitude da vila, confessava ardorosamente meus sentimentos ao padre, este então dizia: "Serrinha, tu és jovem, preste atenção em sua condição, lembre-se de Jó, sujeito que resistiu pacientemente todas as tentações do capeta sem perder a fé em seu superior. Tenha este indivíduo como exemplo, chegará o momento de receber o que queres." No meu caso, fugi apressadamente, deixei apenas bilhete, encontrava-me dominado pelo medo, mas não perdi o orgulho e esqueci a paciência.

Já no navio, subindo o Amazônas, ficara impressionado com a dimensão daquele rio, muitas das vezes não enxergava a outra margem, tinha a impressão que navegava no mar. Naqueles longos dias a alimentação foi escassa, munido apenas de uma rede que adquiri em Fortaleza e meus poucos pertences, não costumava sair muito da região do navio em que estava alojado.
Um dia, estava deitado, lendo um livro que ganhara de presente de aniversário de quinze anos de Padre Janeiro, era uma edição portuguesa antiga, datada do século XIX, da bela epopéia de Homero, a Ilíada. Já o lia pela décima quinta vez, quando, distraído, olhei para meu lado esquerdo e percebi duas moças me observando e sorrindo. Logo que as vi percebi que uma delas recebeu um cutucão da amiga, o que a fez corar. Achei aquilo meio esquisito, não dei muita bola. Apesar que senti um pequeno arrepio quando meu olhar cruzou com a moça que acabara de se avermelhar.

A noite, não conseguira dormir, o medo da decisão que tomara as vezes me dava pesadelos, outras me incapacitava de pegar no sono. Resolvi levantar e caminhar pelo convés principal que se encontrava vazio. O céu estava muito estrelado e a Lua tão cheia que até parecia dia. Fiquei impressionado a observar um estrela que tinha brilho tão intenso que deixara rastro de luz nas águas do rio tão forte quanto a Lua. No momento que me perguntava o que seria aquela estrela, ouvi uma voz feminina: - É a Estrela D'Alva, aparece de madrugada, anuncia a chegada do Sol. Fiquei perplexo com aquelas palavras, primeiro que não imaginava ser quase dia, segundo que trocara poucas palavras com passageiros e passageiras durante aquela estranha viagem. Ela continuou: - Fico te observando, tão quieto e pensativo. Fica vidrado naquele livro. Acho tão bonita a leitura, um dia quero aprender a ler e escrever, as vezes penso que poderia escrever todas as idéias que penso. Respondi sem pensar: - A leitura e a escrita nos libertam da falta de saber, mas podem ser uma prisão de nossos pensamentos no papel. Até hoje me pergunto o porquê disse logo aquilo, mas foi o que se procedeu. A tréplica veio rapidamente: - A prisão é ter tantas idéias, mas não ter a condição de libertá-las. Aquelas palavras me desarmaram, olhei meio pasmo para ela, sua resposta foi me beijar. Aquela sensação era algo que não esperava nunca ter pela primeira vez naquele momento. A continuidade dessa história, não preciso entrar em detalhes, posso dizer, como no dito popular, que fiz barba, cabelo e bigode. Já aprendi de uma vez o que padre Janeiro tanto me alertava, o perigo iminente dos prazeres da carne. Digo, com sinceridade, que neste quesito passei a discordar de meu mestre. O prosseguir da viagem foi mais tranquilo, já não me culpava tanto da vida eclesiástica que deixara. No dia seguinte a este acontecimento, a moça, denominada Adelaide (suas características físicas deixo viver apenas em minha memória) veio furtivamente até mim e entregou-me algumas folhas e um lápis, em seguida, disse: - Não posso demorar, o pai não pode me ver, já descerei em breve no porto de Santarem. Consegui retirar da bagagem do meu tio, lembre-se de mim e liberte suas idéias. Partiu rapidamente e, assim como havia falado, desembarcou no dia seguinte em Santarem.
Após esse acontecimento, passei a relatar minha aventura, fiz como Adelaide me havia pedido, iniciei o processo de alforria das minhas idéias

4 comentários:

posseiro das palavras disse...

Enfim, tive paciência e porque não dizer, coragem, para ler esse texto. Me arrependo amargamente de não ter feito isso antes!

Simplesmente muito bom! Meus cumprimentos a Zé do Trilho, figura que para mim ainda permanece muito enigmática.

Versículo de Souza disse...

Honrando seu sobrenome, trouxe-me reflexões da divisa norte-nordeste que certamente capturou de maneira benévola. Obrigado por doá-las... Não há tempos e ocasiões repetidas, e aquelas que obtivestes acerca do riso terapêutico me fortalecem e me proporcionam maior auto-conhecimento...

Honrado e agradecido! Por quê não dizer, fiquei até sem graça..

Zé do Trilho disse...

Fico imensamente agradecido pela paciência dos companheiros de exílio para ter com meus escritos. Como não dizer que aproveitei tal momento para realizar a terapia diária a ter bode de riso.

Salve, salve, camaradas!

Kelton L. da Silva - disse...

fazia algum tempo que não me prendia tanto a um texto, se fosse um livro acho que o leria inteiro de uma só vez

parabéns!